Por José de Alencar (1873)
Bem desconfiavam eles que aí andavam o dedo e a ronha do Ivo, mas dispostos pespegar-lhe uma sova a propósito, o primeiro ímpeto foi contra o Sebastião, a cujo mandado obedecera o escrevente. Ignoravam ainda a despedida do Garatuja.
Na tarde daquele mesmo dia, estava o “pecador” do Ivo escondido no quintal em segredinhos com Marta, quando o “justo” Sebastião Ferreira, já de retorno, vinha pela Rua da Quitanda em busca da sua casa à esquina da Rua do Aleixo.
Fora o tabelião dar seu giro do costume, e aproveitara para referir em cada porta o caso engraçado. Agora voltava deleitando-se ainda com a lembrança das gargalhadas que o tinham aplaudido, e caminhava teso e compassado ao longo da cerca do prelado. Fatal Imprudência!
De repente sentiu o Freire meter-se-lhe entre as tíbias, um objeto que ele a princípio cuidou ser a própria bengala; mas não teve tempo de averiguar, porque apesar de sua grave compostura foi obrigado a ir de ventas ao chão e esborrachar a respeitável penca.
Babatando com esforço pôde erguer-se, mas sem bengala nem tricórnio, quando outra vez esgrimiu-lhe pelas canelas a taquara que o Cláudio com os companheiros, enfiavam pelo buraco da cerca. As ventas do tabelião de novo se achataram; e mais uma figueira foi plantada.
Finalmente, fulo de pó e bílis, conseguiu erguer-se o Sebastião Ferreira, mas foi para receber a mais tremenda encapelação, que já sofreu atrevido calouro no pátio de uma academia. Os minorenses, saltando da cerca, tinham caído sobre ele de petelecos e chufas: — Uh!... Uh!... mestre urubu!
— Velho fuinha!
— Estais tonto, pato choco!
— Ora vejam, que pascácio? A cair pelas ruas!
— Se estará triscado!
— Qual! São manhas do sendeiro!
— Agüenta, ó pax-vóbis!
— Olha o casquete, que te esquece! disse o Cláudio fincando-lhe dum murro o tricórnio na cabeça.
— Este traste será próprio? acudiu outro empolgando a penca afogueada do tabelião.
— Com certeza é postiço!
— Puxa-o tu, que logo verás! Eu cá aposto que é beque de algum saveiro!
Tanto espremeram as ventas do pobre homem, que afinal rompeu uma descarga de espirros, a modo de fuzilaria, e respingou de tabaco e monco os olhos e a boca dos rapazes. Diante desse fogo rolante fugiram os assaltantes, tomados de nojo e perseguidos pelas galhofas dos companheiros que haviam escapado à metralha narigal.
Nesse momento assomou o prelado à porta da rua, e com sua habitual mansuetude exortou os seus fâmulos ordenando-lhes que se recolhessem:
— Pode seguir descansado, senhor tabelião, que já os acomodei. Isto de rapazes, são como cachorros, que em pilhando a porta aberta, embestegam por ela afora, e não há de ter mão neles.
O Sebastião Ferreira não se dignou ouvir. Amarrotado pela encapelação na qual entretanto nunca perdera a sua gravidade, enveredou para a casa, onde chegou bufando de cansaço e de raiva. O pavio de uma candeia não arderia mais do que o magriço tabelião aceso em ira.
No entanto o Ivo, desapercebido do que sucedera, obtinha de Marta mais um abraço, que vinha completar as duas dúzias em três dias; e animado com esse sucesso atreveu-se, ainda que balbuciante, a pedir uma boquinha.
Teve em resposta um muxoxo, e viu desaparecer como por encanto o vulto da menina, que deitara a correr espavorida
XX
UM BECA DO SÉCULO XVII QUE NÃO CHEGA AOS CALCANHARES
DOS MODERNOS TEMUDOS
À Rua da Misericórdia, próximo do Beco do Cotovelo, onde tinha residência, estava o Ouvidor-Geral, Dr. Pedro de Mustre Portugal, em sua recâmera particular, atarefado com o despacho de processos.
Era homem de boa fêvera, nédio e socado, com uma dessas gorduras maciças e rubicundas, verdadeira polpa fradesca, da que se cria ao grosso unto do refeitório, e na manga lassa do hábito.
Cá, por fora dos conventos, também a terra produz dessa fécula substancial quando a pachorra se mete em bombachas ou cuecas, e deita a dormir a consciência. Foi naturalmente por asse modo que o Dr. Pedro de Mustre Portugal obteve a rija carnadura que lhe realçava a compostura, e dava-lhe um aspecto, senão majestoso, certamente que importante pelo volume.
Sentado no telônio, sobre o estrado, esclarecido pela frouxa luz de uma lâmpada de azeite de mamona, o primeiro ministro da Justiça de El-Rei folheava os autos e os ia aviando, não sem escaparem-lhe algumas observações, que nada tinham com as ordenações e os provarás.
— Han-han!... murmurava com certo sonsonete; cá está o Matias Cosme!... Havemos de ver agora em que param as soberbias!... Se torna a voltar a cara para não se desbarretar quando eu passar? Tornara!...
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.