Por José de Alencar (1860)
Meneses – Não, decerto!
Carolina – Entretanto, ele tem um lugar nessa sociedade, pode possuir família! E a nós, negam-nos até o direito de amar! A nossa afeição é uma injúria! Se alguma se arrependesse, se procurasse reabilitar-se, seria repelida; ninguém a animaria com uma palavra, ninguém lhe estenderia a mão... (Vieirinha sai, deixando aberta a rótula)
CENA VII
(Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)
Meneses – Talvez seja uma injustiça, Carolina; mas não sabes a causa?... É o grande respeito, a espécie de culto, que o homem civilizado consagra à mulher. Entre os povos bárbaros ela é apenas escrava ou amante; o seu valor está na sua beleza. Para nós, é a tríplice imagem da maternidade, do amor e da inocência. Estamos habituados a venerar nela a virtude na sua forma a mais perfeita. Por isso na mulher a menor falta mancha também o corpo, enquanto que no homem mancha apenas a alma. A alma purifica-se porque é espírito, o corpo não!... Eis por que o arrependimento apaga a nódoa do homem, e nunca a da mulher; eis por que a sociedade recebe o homem que se regenera, e repele sempre aquela que traz em sua pessoa os traços indeléveis do seu erro.
Carolina – É um triste privilégio!...
Meneses – Compensado pelo orgulho de haver inspirado ao homem as coisas mais sublimes que ele tem criado.
Luís – Penso diversamente, Sr. Meneses. Por mais injusto que seja o mundo, há sempre nele perdão e esquecimento para aqueles que se arrependem sinceramente: onde não o há é na consciência. Mas não se preocupe com isto agora, Carolina; vê que não lhe faltam amigos, e essa mão que deseja, aqui a tem!
Carolina – Deixa-me beijá-la!
Luís – Não se beija a mão de um irmão; aperta-se!
CENA VIII
(Os mesmos e Pinheiro)
Helena – Quem é o senhor?
Pinheiro – Um moço que veio no meu tílburi entrou aqui... Não posso esperar mais tempo; são nove horas.
Helena – Como se chama?
Pinheiro – Vieirinha.
Helena – Ah! Já saiu! Pregou um calote!
Araújo – Para não perder o costume.
Meneses – Helena não lhe deu os dez tostões!
Pinheiro – Helena!... Os senhores!... Aqui!... E ela! Carolina!...
Carolina – Quem me chama?
Pinheiro – Ah!
Helena – Sr. Pinheiro!...
Pinheiro – Como está magra e pálida!... Oh!... Deus é justo!
Luís– Cale-se, senhor! Se não respeita a fraqueza de uma mulher, respeite ao menos o leito de uma enferma!
Pinheiro – Não é minha intenção ofendê-la; ao contrário... O acaso fez que o homem pobre, mas honrado, encontrasse diante das mesmas testemunhas, reduzida à miséria, a mulher que o arruinou, e que lhe respondeu com uma gargalhada quando ele pedia-lhe que o salvasse da vergonha. Esqueço tudo; e lembro-me que sou cristão. Dou a minha esmola!
Carolina – Toda esmola não pedida é um insulto; e um homem nunca tem o direito de insultar uma mulher!
Pinheiro – Recebeu-as quando eram de brilhantes!...
Carolina – Nunca recebi esmolas; recebia o salário da minha vergonha! Mas fique certo que não há dinheiro no mundo que a pague. Todos os senhores que estendem a uma mulher a mão cheia de ouro; que depois de matarem a alma cobrem o seu corpo de jóias e de sedas para reanimar um cadáver, julgam-se muito generosos!... Não sabem que um dia essa mulher daria a sua vida para resgatar o bem perdido; e não o conseguiria!... Portanto não nos acusemos; o senhor perdeu a sua fortuna, eu perdi a minha felicidade; estamos quites. Se, hoje, sou uma mulher infame, não é o senhor, que concorreu para essa infâmia, que foi cúmplice dela, quem me pode condenar.
Meneses – Aproveite a lição, Sr. Pinheiro; e guarde a sua esmola. Quando tiver passado este primeiro momento de irritação há de reconhecer o que já lhe disse uma vez. Há criaturas neste mundo que se tornam instrumentos da vontade superior que governa o mundo. Não foi Carolina que o arruinou, que do moço rico fez um cocheiro de tílburi; foi, sim, a vaidade, a imprudência, e o desregramento das paixões, sob a forma de uma moça. Incline-se pois diante da Providência ; e respeite na mulher desgraçada a vítima do mesmo erro, e o agente de uma punição justa.
Pinheiro – Sempre respeitei a
desgraça, Sr. Meneses; e ainda agora mesmo, se ela precisar de mim... Já não
sou rico, mas economias de pobre ainda chegam para aliviar um sofrimento.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.