Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Eu fiquei pensativa e admirada. Nunca me tinha vindo ao pensamento que se pudesse amar assim a um homem estranho.

Luisinha ainda se dirigiu a mim:

– E agora, que já sabes o que é amar, Celina, é preciso que subscrevas ao nosso ajuste; que, nunca sejas a companheira de um homem a quem não tenhas amor; e que, finalmente, logo que chegues a amar, no-lo digas em confidência.

– Mas quem sabe se chegarei a amar desse modo? respondi eu.

Minhas duas amigas começaram a rir de novo; e Luisinha replicou:

– Hás de chegar, Celina; o amor vem quase sempre contra nossa vontade e ainda contra nossa vontade se deixa ficar em nossos corações.

– E como sabes isso, Luisinha?...

– Ora! tornou-me ela; achei uma boa amiga que me deu as explicações que agora te estou dando.

– Quem nos diz que ela ainda não ama?... disse Leopoldina.

– Ainda não. Mas vamos ao nosso ajuste. Tu subscreves a ele, Celina?...

– Subscrevo, respondi hesitando.

– Vamos jurar! exclamou Leopoldina.

Fizemos um juramento de moças. Juramos por nossa amizade e selamos o nosso pacto com beijos.

Descemos e entramos na sala, onde todos notaram que eu estava pensativa e um pouco melancólica.

Às onze horas da noite retiraram-se nossas visitas. Daí a pouco meu pai abençoou-me, e eu subi de novo para meu quarto.

Deitei-me. Minha mãe entrou, dirigiu-se a meu leito e como costumava fazer todas as noites, beijou-me e disse:

– Dorme bem, Celina.

Achei-me só.

Começaram então a ferver em minha cabeça aquelas idéias que eu tinha pela primeira vez concebido. Foi-me impossível dormir durante muito tempo; julguei que delirava; pensei que ia ficar doida, porque às vezes me parecia ver ao redor de mim meninos louros e travessos, que corriam, saltavam, chegavam-se a meus ouvidos, diziam baixinho – amar! – e fugiam de novo correndo, saltando, e rindo-se muito; outras vezes era uma mão invisível, que estava escrevendo pelas paredes de meu quarto, e com tinta de fogo, essa mesma palavra – amar!...

Enfim, adormeci.

Mas o pensamento, que me governava acordada, não me deixou dormindo. A pesar meu, a idéia única que me ocupava até no sono, era essa mesma que me tinham feito conceber na palavra – amar.

Sonhei.

Eu estava em um vale coberto de verde grama: defronte de mim erguiam-se dois montes altos e povoados de lindas palmeiras; por entre eles prolongava-se um lago profundo, mas de águas tão límpidas que se lhe via perfeitamente o leito de areias de ouro.

O lago, que se continuava por entre os montes, vinha terminar-se no vale, e a poucas braças de um outeirinho, onde eu estava sentada debaixo de um caramanchão natural.

Não era dia nem noite; era a hora do crepúsculo.

De repente soou uma música doce e maviosa, como eu nunca tinha ouvido; e uma multidão de meninos semelhantes aos que eu imaginara acordada, todos eles lindíssimos, louros, muito claros e rosados, vieram com cestinhas de rosas nos braços dançar ao redor de mim.

A música soava sempre... sempre... e parecia que vinha do céu.

No fervor de sua dança começaram os meninos a lançar flores sobre mim; derramou-se na atmosfera um imenso perfume... deleitoso... embriagador... e a música soava sempre tão doce... tão bela, que eu me senti adormecer entre perfumes e harmonias.

Mas era um sono de encanto, no qual eu via tudo quanto se passava no vale...

Então o mais formoso daqueles meninos tirou dentre os cabelos, que eram fios de ouro, uma seta pequenina, porém muito aguda, chegou-se a mim, e rasgando-me o peito, arrancou-me o coração.

Eu não senti dor, nem correu sangue; a ferida de meu peito fechou-se de repente a um beijo que nela deu o menino; e não ficou cicatriz.

A música cessou imediatamente, esvaeceram-se de súbito os perfumes; os meninos bateram palmas e soltaram grandes risadas, e eu, despertando ao ruído delas, comecei a chorar muito por ver o cruel roubador levar o meu coração.

A poucos passos de mim o menino cavou a terra com a seta, lançou na cova que fez, o meu coração, e cobriu-o com a mesma terra que havia tirado.

E os outros que me viam chorar muito, vieram com as mãozinhas aparar minhas lágrimas, e foram com elas regar o meu coração que estava plantado.

Chorei ainda, e enquanto chorei eles regaram a terra; quando o meu pranto cessou vi ir nascendo um arbustinho no lugar onde o meu coração fora plantado.

Os meninos, mal perceberam que o arbustinho vinha brotando, correram para os montes batendo palmas e rindo muito.

Desceu então do céu um belo anjo, que veio voar à roda de mim, e depois pousou entre flores sobre o caramanchão. Esse anjo tinha o rosto de minha mãe, e olhava para mim tão piedoso!...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2728293031...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →