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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

“Acabado o jantar, Honorina, eu chamei-te para junto de mim; todos vieram cercar-me e ouviram-me repetir a história da cruz que ias receber, e que conseqüentemente foi lançada ao teu pescoço.

“Tu, Honorina, posto que contasses nove anos, eras inocentinha como uma pomba; porque na falta de tua mãe (pois já a tinhas perdido), nós, teus avós, te guardávamos, e zelávamos sobre a tua educação, para que teu pai te não enlouquecesse com as tuas extravagantes idéias. “Inocentinha como eras, tu beijaste a cruz com alegria infantil, e, sem ainda compreender o valor dela, orgulhosa a andavas mostrando a nós todos.

“Então, Lauro disse-te sorrindo-se:

“Honorina... eis uma bela cruz para ser furtada! tem ricos brilhantes, que se podem vender...

“Tu correste instintivamente para mim; e eu respondi a teu primo:

“Lauro, tu és louco: não se graceja com um objeto sagrado.

“Este episódio não passou daí. Às sete horas da noite adormeceste, e a tua cruz foi depositada perto do teu leito numa salva de prata.

“Às dez horas da noite a cruz da família tinha desaparecido.

“A dor que sentimos não se pode descrever; e antes de procurar conhecer o ladrão, teus avós e eu, Honorina, já tínhamos adivinhado quem fora.

“Todas as suspeitas recaíram sobre Lauro.

“Félix e uma velha parente nossa declararam que o tinham visto entrar no teu quarto com precaução e cuidado; que ele por algum tempo aí se demorara, tendo tomado e examinado a cruz atentamente.

“Lauro, ouvindo o testemunho de ambos, corou e disse com a sua costumada audácia:

— Tudo isso é verdade.

— E a cruz?... onde a puseste?... bradamos nós.

— Deixei-a lá mesmo; foi a sua única resposta.

“O resto tu o sabes, Honorina; a carta, que ouviste ler a teu pai, me poupa o trabalho de referir a cena de maldição, em que eu proferi as palavras de que ele se lembra, palavras que nunca me arrependi de ter proferido, palavras, que repito ainda...” E a velha Ema, levantando a voz, disse com força:

— Torne-se em pedra o pão que ele comprar com o dinheiro pelo qual vendeu os brilhantes da cruz da família!... o ladrão não me obrigue a corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim!...

VIII

O primo Félix

Era a hora em que (segundo a fraseologia das moças) se prega no ponto: e da costura ou do bordado corre-se para a janela. Entendamo-nos; não queremos com isto dizer que a nossa civilização esteja tão atrasada, que se imponha ainda ao belo sexo o importuno cativeiro da agulha: nada; isso não! É somente propósito nosso fazer sentir que tinha chegado o momento feliz em que o sol não reflete mais os seus raios sobre as janelas das casas da nossa cidade, e conseguintemente apareceram naquelas as elegantes e mimosas filhas de Niterói.

D. Rosinha estava, conforme o seu costume, de janela, e então conversava fortemente com uma vizinha tão sua amiga, que já uma vez chegara a sustentar seriamente que ela não era feia; sentia-se, pois, tão enlevada, no que praticava com o seu pensamento, como a chamava, que não viu entrar o primo Félix.

Antes de irmos por diante convém lembrar que temos aqui dois objetos que, sendo muito comuns, merecem, todavia, momentos de reflexão: são eles uma moça, que está de janela, e um primo da moça bonita.

Mas é preciso prevenir também que as observações, que vão ser lidas sobre o primeiro ponto, não poderão caber senão a um restrito número de jovens, que não podem formar regra, que são tristes exceções entre as do seu sexo. E, para ofender ainda menos a susceptibilidade de quem quer que seja tratando delas, não diremos “uma moça”; diremos uma moça loureira.

(continua...)

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