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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Porque me julgam tão sem amparo que já me aconselham o casar-me com este homem... E, na verdade, eu sei que sou muito, muito infeliz! Não tenho nada, não sei trabalhar, não tenho outras amigas senão tu, e esta mulher a quem devo benefícios que me colocaram inferior a ela... Quem sou eu, afinal? Uma grande senhora que não pode guardar a independência de sua alma à custa dos mais rudes trabalhos... Até hoje, a minha pureza foi tão-somente manchada pela calúnia de minhas tias; mas amanhã em que posição me colocará a Providência? Toda a gente terá direito de me considerar ou perdida, ou no transe de me perder... E, depois, Vitorina? Quando sairmos daqui, onde iremos? Se, ao menos, meu pai me mandasse entregar já as jóias de minha mãe... ainda teríamos com que viver, e eu iria trabalhando nos bordados...

― Os bordados... – murmurou Vitorina.

― Sim...

― Os bordados, minha senhora... – tornou a criada, sorrindo amargamente. – Vossa excelência sabe quanto eu recebia de cada bordado em que a menina gastava as horas todas do dia e algumas da noite? Era conforme. Uns regulavam o tostão por dia e noite. Outros a seis vinténs. E mais diziam que era por favor, porque tinham melhor e mais barato...

Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos.

― Ó minha mãe, se tu me visse chorar!... – exclamou a filha do general inclinando a face para o seio arquejante.

XVI POR CAUSA DO FÍGADO

Escreveu Ângela a João Pedro perguntado-lhe se o pai respondera. Teve resposta negativa. Que o fidalgo tivesse piorado supunha o escudeiro por ter lido numa gazeta de Lisboa que o bravo general Noronha estava em Paris sofrendo, além de antigos achaques, os graves incômodos de uma oftalmia, que o ameaçava de cegueira.

Não era já a herança que a alvoroçava. Contentá-la-ia a entrega das jóias, como um socorro imediato, para poder, agradecida a hospitalidade do brasileiro, procurar sua vida noutras condições. Mas até esta esperança se fechara à pobre senhora!

Na correnteza destes sucessos, aconteceu adoecer de hepatite Hermenegildo Fialho. Bem pode ser que o amor contribuísse a sobreexcitar a inflamação crônica do fígado, entranha que se ressente das perturbações morais por esquisita simpatia. Alguma razão, pois, tinha a mortificada Sr.ª Rita para atribuir a doença do irmão a pura paixão de alma.

A enfermidade agravou-se. Vieram as intermitentes, a intumescência da víscera, o fastio e a rápida magreza, os suores noturnos e o delírio, enfim o estado em que a medicina capitula assustadoramente a doença.

Nos delírios, o brasileiro rosnava o nome de Ângela, caso que fazia sempre repuxar chafarizes de lágrimas dos olhos da irmã, ao passo que o rosto de Ângela se entristecia compassivamente.

Uma vez que o doente desagradou notavelmente ao médico, Rita lançou-se de joelhos aos pés da hóspeda, e clamou:

― Meu anjinho, faça um voto a Nossa Senhora dos Remédios que há de casar com meu irmão, se ele melhorar!

Faça, pelas chagas de Cristo, e por alma de sua mãezinha!

― Levante-se, Sr.ª Rita! – disse Ângela, inclinando-se para ergue-la nos braços.

― Não me levanto sem vossa excelência prometer a Nossa Senhora que há de casar com o meu pobre Hermenegildo, que morre de paixão pela senhora.

― Jesus! – balbuciou a atribulada menina.

― Então? – instou a suplicante velha. – então, minha senhora!...

― Pois a Sr.ª Rita cuida que a minha promessa salva seu irmão?! – argumentou Ângela.

― Cuido, cuido, porque Nossa Senhora há de ouvir a promessa dum anjo!

― Pois... sim – gaguejou a violentada senhora.

― Casa com ele? – acudiu Rita, radiosa de esperança.

― Sim... caso...

Levantou-se Rita com exultação de mentecapta, entrou no quarto do enfermo, e chamou-o tão estrondosa e vertiginosamente que o homem abriu os olhos, as ventas, e a boca, tudo a um tempo e medonhamente.

― Olha que a Sr.ª D. Ângela fez a Nossa Senhora dos Remédios a promessa de casar contigo, se tu melhorasses.

― Hum... – fez Hermenegildo, e quedou-se extático a olhar para a jubilosa cara de Rita, e ela a repetir-lhe até quarta vez a notícia.

E, ao mesmo tempo, Ângela soluçava e estalejava com os dentes vibrados por um frio nervoso. E Vitorina, a fim de consolá-la e tirar-lhe a carga da promessa, dizia-lhe:

― Não se aflija, menina, que o homem não escapa! Quando vossa excelência casar com ele, dou licença que me enforquem.

Voltou o médico Segunda vez naquele dia, e achou o homem menos febril, e a língua mais úmida. No seguinte, a febre foi menor; e o suor da noite quase insensível. Ao outro dia, como o doente já desemperrasse a língua para dizer que a dor o deixava respirar livremente, o médico, voltado para Rita e Ângela, declarou, com vaidade de ter restaurado um moribundo, que o doente estava livre de perigo, e ia entrar em convalescença.

E, dentro em pouco, entrou a bolear-se, a arredondar-se, a pele a encher, as orelhas a enconchar-se com um escarlate de coralinas, o nariz a vestir-se de tegumentos, o todo enfim do carão a luzir e a estilar sorosidades de sangue novo que parecia uma espumadeira de tomates.

(continua...)

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