Por Lima Barreto (1911)
A casa toda era cercada pelo jardim e a varanda ao lado desaparecia sob um dossel de trepadeiras. A mulher de Numa ficou à espera um instante. Antes que o criado lhe viesse atender, uma outra pessoa, um rapaz bem apessoado, bigodes encerados, surgiu à varanda a modos de quem ia sair.
— Por aqui, D. Edgarda?
Desceu a pequena escada e veio abrir o portão que dava para a rua. A visita pode responder.
— É verdade, venho despedir-me... D. Celeste não está, Doutor
Felicianinho?
O moço, sempre sorrindo, afirmou que estava e levou-a até o interior da casa. Ainda não era doutor, mas estava no fim do curso. Sabia-se mal a origem da grande proteção que gozava aquele rapaz da família de Macieira. Vindo do interior, a estudar no Rio qualquer coisa, aí pelo segundo ano de engenharia, começara a freqüentar a casa e dentro de seis meses nela se instalara completamente. Recebia da família tudo que necessitava: roupa, livros, dinheiro e corria que isso obtivera devido à paixão que inspirara à velha D. Alice, mãe de Macieira Galvão, de quem se fizera amante.
Ao encontrá-lo no portão, Edgarda pôs-se por instantes a imaginar como aquele moço de vinte e poucos anos, tão elegante, quase bonito, podia viver com uma velha de quase setenta, uma ruína, inteiramente escorada por postiços e ingredientes.
Via-o já formado, colocado, casado, subindo e compreendeu então a natureza de seu amor e a razão de sua complacência.
Não era a primeira vez que ali vinha; e, da sala em que estava, conhecia bem as alfaias e móveis. Tudo era caro, senão de bom gosto; mas, da forma que estavam arrumado, não tinham nada de inteligente ou artístico. Ressumava de tudo uma exibição de riqueza, uma necessidade de provar fortuna, mas nunca um sentimento superior de luxo, de arte, de conforto ou gosto.
Não custou em vir ao encontro da amiga, D. Celeste. Entrou com aquela sua bonacheirice roceira, risonha, contente e foi toda aberta em alegria que falou à amiga. Havia cerca de vinte anos que passava pelas altas camadas, que a comprimia o código de várias cerimônias de sociedade, mas guardava intactas todas as qualidades e defeitos de sua educação de fazenda. De gostos elementares sem compreensão para as altas coisas, com fraca energia de sentidos, D. Celeste era virtuosa e casta; tinha, entretanto, as ridículas arrogâncias de nossa nobreza campestre — uma dureza e um certo desdém em tratar os inferiores, um sentimento de propriedade sobre eles e um séqüito atroz de pequeninos preconceitos e superstições.
Apesar disso, era generosa e caridosa. Sendo assim, à primeira vista era simpática; e quem a analisasse cuidadosamente, achá-la-ia um pouco ridícula, mas sempre simpática. Em a examinando bem, sentia-se perfeitamente tudo o que ela tinha de mau e estreito dentro de si, tudo o que o seu feitio de espírito representava de peso morto na nossa sociedade; por momentos, porém, havia profundas modificações no seu caráter e ela se manifestava em grandes atos de verdadeira grandeza que brotavam da sua exuberância sentimental.
— Eu não esperava você hoje, minha querida Edgarda. Julguei que viesse nas vésperas...
— Desde a semana passada que quis vir, D. Celeste. Quando é o embarque?
— Minha filha, não sei bem... Esse negócios de política andam tão atrapalhados... Macieira está com pouca vontade... Quer ver em que param as modas... Por mim, não tenho grande vontade.
— É grande a capital?
— Qual! É menor que Niterói.
— É Niterói sem o Rio perto, não é?
— O quê? — fez D. Celeste sem compreender. — Quinze dias de viagem!
Não há bondes, não há água...
— Compete ao Doutor Galvão por isso tudo.
— Qual! Há tempo para isso? A política monopoliza tudo. É um coronel que quer isso, é um deputado que quer aquilo... Há as brigas. Demais, a renda é pequena, não dá...
— E é saudável?
— Lá isso é; mas não é a cidade que me aborrece. É aquela gente. Que gente!
E fechou a fisionomia cheia de desprezo e desgosto.
— D. Celeste, que tem a senhora com eles?
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.