Por Aluísio Azevedo (1891)
— Que estranha pergunta, Ângelo!... Deves, decerto! É talvez alguma desgraçada que precisa de quem a conduza ao arrependimento. A consciência pura e bem apoiada na fé jamais teme as ciladas do inferno. Vai! Fala-lhe! E, se for uma pecadora, suplica a Deus, noite e dia, até conseguires o perdão para sua alma.
— Bem, meu pai...
E Ângelo afastou-se lentamente, tomando a direção da capela.
CAPÍTULO XVI
Diabo, mundo e carne
Ângelo aproximou-se vagarosamente da misteriosa mulher que o esperava na capela, e perguntou-lhe a que vinha.
Ela, cuja comoção se percebia, apesar do espesso véu que a ocultava da cabeça aos pés, respondeu indicando-lhe o confessionário. Ele encaminhou-se então para lá, sentou-se, e, com um gesto, convidou-a a que se ajoelhasse a seus pés.
O vulto tremia todo, quando vergou os joelhos e abaixou o rosto, para rezar entredentes o confiteor.
— Não se amedronte, minha pobre irmã... disse o presbítero com a voz amiga; não trema desse modo, que por mais fundas que sejam as chagas do seu coração? e por maior que seja o remorso da sua alma, a misericórdia divina há de chegar até lá, se o arrependimento já lhe abriu o caminho e franqueou as portas. Não se assuste, porque não é a mim que vai falar, é a Deus, cujo seio de amor e de bondade jamais se fechou uma só vez aos que sofrem e pedem a remissão das suas culpas. Vamos! Abra-me a sua alma de par em par. Confie-me as suas dores, que eu as farei minhas, e ajudá-la-ei a carregá-las até aos pés do nosso pai supremo!
A embuçada, em vez de responder às palavras do confessor, deixou cair a cabeça sobre os joelhos dele, e abriu a soluçar desesperadamente.
Era um pranto convulso e sem tréguas, que lhe agitava o corpo inteiro, e que menos parecia a dor silenciosa e triste dos arrependidos, do que a explosiva revolta de quem chora pela ausência de uma ventura sensual e terrestre.
Ângelo, por sua vez, estremeceu perturbado e tolhido de alheios sobressaltas. Daquela misteriosa carne de mulher que palpitava a seus pés, erguia-se um quente eflúvio, traiçoeiro e lascivo, que lhe entontecia a alma, um odorante e luxurioso vapor de estranhos vinhos que o enleavam. Dir-se-ia que aquelas lágrimas recendiam a volúpia e que aqueles soluços eram soluços de amor, chorados no sigilo de uma alcova.
Ele ergueu-se, a embuçada segurou-lhe as mãos, cobrindo-as de beijos apaixonados.
Ângelo quis fugir. Ela, com um gesto rápido, rejeitou o véu que lhe rebuçava as formas, e ali, no sagrado retiro daquela pobre capela de aldeia, surgiu a perigosa Alzira, a terrível condessa de gelo, mais pálida e mais sedutora do que nunca, assim humilde e triste sob a dura violência daquelas queixas de amor.
— Ó meu Deus!... balbuciou Ângelo de si para si, abaixando os olhos, como se estivesse defronte do demônio. Ó meu Deus, dá-me coragem! dá-me coragem!
E recuou alguns passos, estendendo o braço, como para isolar-se daquele abismo.
Nesse instante, Ozéas acabava de surgir ao fundo da capela, observando os dois, escondido por detrás de um altar. Seu peito arfava tão convulso como o peito de seu filho, mas nele o sobressalto era de outra espécie.
Ângelo, todavia, parecia calmo e senhor absoluto de si mesmo. Apenas o traíam a súbita palidez das faces e um ligeiro tremor de lábios.
— Creio, minha irmã, que nada mais tem que fazer aqui... disse ele pausadamente, apontando-lhe a saída. Queira retirar-se... não é este o lugar que convém às suas lágrimas... Vamos... saia, e, em benefício de sua própria alma, não torne a cometer semelhante desatino, que a faz muito mais culpada do que todas as outras maldades cometidas. Vamos! Retire-se! Este sagrado e tranqüilo recanto pertence somente aos arrependidos que sofrem!...
— Mas eu sofro! exclamou ela. Eu sofro muito! sofro infernalmente!
— Sofre?! inquiriu o padre, transformando-se. É talvez o arrependimento!
Fale, minha irmã!
— Não! não sofro pelos delitos cometidos, não sofro pelas mortes que provoquei: sofro porque te amo, Ângelo! porque te amo loucamente!
E quis chegar-se para ele. Ângelo tornou a apontar-lhe a saída.
— Retire-se! Eu pedirei a Deus que se compadeça dos seus desvarios...
— Oh! eu te amo! eu te amo! eu te amo! soluçou ela, caindo novamente de joelhos, e procurando beijar-lhe a fímbria da samarra. Amo-te: eis o meu crime! Eis a minha grande culpa! Perdoe-me, já que tens um coração de santo! Sei que devia esconder o meu segredo e morrer com ele fechado dentro dos lábios!... Sei que nenhuma esperança tenho de ser algum dia correspondida no meu desgraçado amor, porque nada mereço de um ente tão puro como és!... Mas perdoe-me! sou uma fraca mulher que nunca a mais ninguém amou, e tu o homem que pela primeira vez me acordaste o coração, e me encheste a alma de sonhos de ternura! Perdoe-me, se te amo tanto, Ângelo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.