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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

E o tempo decorria.

Gaspar era já apontado no Rio de Janeiro como um tipo singular. Parecia um Positivista ortodoxo. Viam­no passar sombrio e sinistramente calmo, pálido e misterioso, de olhos fundos e fixos, porte elevado e magro, um tanto curvado, a conduzir pela mão uma criança, em cuja fisionomia, aliás fresca e pura, se refletia já a sombra da melancolia que lhe projetara o inseparável companheiro.

Levavam os dois uma vida bem concentrada e tíbia! Gaspar, que se tornara seco para com todos, gastava, entretanto, boas horas a discorrer com o pupilo. Ouvia­o com toda atenção. Conversavam, discutiam, como se fossem dois amigos da mesma idade. Entre eles não havia segredos, tratavam­se por tu, e liam comumente os mesmos livros.

Ao lado deles definhava o coronel, cujo destino mais se descompunha de dia para dia. Por este tempo, como para o prostrar de todo, faleceu Ana, a sua filha mais velha, casada com o empregado público, o inconsciente rival do comendador Moscoso.

E o viúvo de Ana ausentou­se para Cantagalo, doente e triste. A moléstia da mulher comera­lhe muito dinheiro e o obrigara a tomar compromissos superiores aos seus recursos; além disso, a falta de saúde o forçava a prolongar uma licença sem vencimentos.

Fazia má impressão vê­lo com a sobrecasaca puída do uso e das teimosas escoriações, com os seus sapatos remontados, o seu espinhoso colarinho a arrancar­lhe as cordoveias do magro pescoço com as caprichosas franjas dos fiapos do linho.

O comendador Moscoso sorria de vaidade ao vê­lo passar, tossindo e arrastando aquele ar de indigência.

— Aquilo mesmo já era de esperar! dizia. Olhem só que tipo! A mulher lá ficou morta! naturalmente de maus tratos 1 Talvez de fome!

E, para gozar um triunfo completo, meditou os meios de tirar o emprego ao pobre diabo.

A cousa não seria difícil: o comendador tinha boas amizades, alguns figurões tomavam chá em casa dele. O rancoroso deu a entender que desejava empregar no lugar do viúvo de Ana um seu afilhado, e o genro do coronel recebeu em Cantagalo a notícia de que, a pretexto de abandono de emprego, lhe haviam lavrado a demissão.

O infeliz esteve a perder a cabeça.

E todas estas novas mal­aventuras afligiam consideravelmente o pai de Gaspar. Era justamente por ocasião delas, que as tais mofinas do Jornal do Comércio recrudesciam de mordacidade.

Aquela perseguição covarde e mesquinha, pingando­lhe todos os meses duas gotas de fel no coração, acabara no fim de alguns anos por enchê­lo de um grande desgosto, que lhe estragava, de todo, o resto da existência.

O comendador torcia­se de gozo com os efeitos de semelhante vingança.

O pai de Gaspar ultimamente confessava já a sua amargura quando um lia uma das tais; mofinas. Ele e o filho empregavam todos os esforços para descobrir quem seria o infame detrator, nada porém, conseguiam: O Jornal do Comércio guardava segredo, e o testa de ferro, o Romão José de Lima, estava pronto a surgir desde que o injuriado chamasse o jornal à responsabilidade. Ninguém sabia explicar aquilo, mas afinal já liam todos as chacotas do comendador, e muitos parvos já gostavam delas e já as esperavam com a risadinha pronta.

Quando o viúvo de Ana foi demitido, o Jornal do Comércio publicou as seguintes palavras:

"Não podemos deixar de dar ao nosso velho amigo, o coronel Pinto Marmelo, os mais bombásticos parabéns pela prova de consideração que o governo acaba de manifestar­lhe, lavrando a demissão de seu condigno genro — o Marmelada. Foi uma medida justa e bem aceita!

"Consta que o Marmelada de ora em diante, à falta de outro meio de vida, passará a tocar realejo na rua, e não sabemos se o sogro, que também anda por baixo, o acompanhará, fardado ou vestido de mono.

Deve ter graça! Cá estamos nós para apreciar.

A Sentinela."

E havia quem admirasse a constância do autor de tais sensaborias, sem ninguém prever o formidável escândalo que com elas se armava, como daqui a pouco terá o leitor ocasião de verificar.

XII

COMO E ONDE CRESCEU AMBROSINA

O viúvo de Ana ficou desde então conhecido pela alcunha de "Marmelada".

Gabriel, feitos alguns preparatórios na Corte seguiu para S. Paulo em companhia de Gaspar, que o destinava a matricular­se na escola de Direito.

Enquanto para esse se arrastava a existência desse modo, corria a vida petulante e fagueira para a gente do comendador.

Bem diferentes eram os dois destinos!

O comendador Moscoso, segundo os cálculos que o leitor se dará ao trabalho de fazer, era casado havia já quinze anos, pois há quatorze dera­lhe a sua Genoveva uma filha, a que batizaram os dois com o doce nome de Ambrosina.

(continua...)

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