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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Se, de um lado, criava involuntária admiração por Meyer e, rodeando-o, em sua imaginação, do prestigio de uma beleza irresistível, via aumentar o seu receio em abrigar tão perigoso sedutor; do outro, sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas da hospitalidade, a qual, com a recomendação expressa de seu irmão mais velho, assumia caráter quase sagrado. Juntem-se a isto os preconceitos sobre o recato doméstico, a responsabilidade de vedar o santuário da família aos olhos de todos, o amor extremoso à filha, em quem não depositava, contudo, como mulher que era, confiança alguma, as suposições logo ideadas acerca da impressão que naturalmente aquele estrangeiro produzira no coração da sua Inocência, já quase pertencendo ela a outrem, e as colisões que previu para manter inabalável a sua palavra de honra, palavra dada em dois sentidos agora antagônicos—um mundo enfim de cogitações e de terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de Pereira, refletia-se com sombrios traços de inquietação em seu rosto habitualmente tão jovial.

—Por que razão é, perguntou ele a José Pinho para desviar aquela conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama Mochu ao Senhor Meyer?

Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu desembaraçadamente:

—Ah! E um modo de falar...

—Como assim?

—Já lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama senhor?

—Chamo.

—Pois, então?... Eu também lhe chamo assim... mas falo em francês, Mochu quer dizer senhor, nessa língua.

—Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então e isso? Pensei que fosse outra coisa...

—Juque; avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare tudo; nós vamos ao mato agora mesmo...

—Venha comigo, propôs o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei lugares onde há dessa bicharia miúda, coisa nunca vista. —Com muito gosto, concordou o alemão.

E voltando-se para o camarada:

—Ande, Juque, ordenou ele, bote a pita para fora, caixas de folha-de-flandres, clorofórmio, rede pronta... Depressa homem, depressa!

José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado para o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.

—Minhas lentes, pediu o naturalista, o saco para os bichos de casca grossa... Depressa... Vou ajudá-lo.

E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objetos de que necessitava, enfiando a tiracolo dois ou três talabartes finos que sustentavam umas caixinhas encouradas. Numa delas, havia um copo de prata com a competente corrente noutra, um faqueiro de peças dobradiças e de metal do príncipe. Também assentou ao flanco uma frasqueira defendida de choques externos por fino trançado de vime e que continha aguardente, comprada de fresco na Vila de Sant'Ana do Paranaíba.

Não contente com o peso de todos esses apêndices à sua pessoa, fingiu largo talim com uma espécie de patrona de folha-de-flandres e que sustentava um grande facão inglês, um revólver e uma espada de caça.

Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças com grande espanto de Pereira e até de Cirino, substituiu Meyer os óculos habituais por outros, de vidros afumados, multo grandes e convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do Sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação: uma rodela ampla de pano branco forrado de verde que aumentava as abas do chapéu-do-chile, descansando em parte sobre elas.

Com esse trajo ficou decerto a mais estapafúrdia figura que algum cristão encontrar poderia naquelas trezentas léguas em derredor; entretanto, Pereira, ofendido com aqueles cuidados de prevenção meramente científica, que lá no seu bestunto qualificava de faceirice feminil:

—Veja só, disse ele para Cirino, como este maricas gosta de se enfeitar!... Você não me engana, não, senhor alamão das dúzias...

Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava alguma coisa.

—Estou pronto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no mato.

—Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.

—Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Juque, procure na canastra nº 2, à esquerda, no segundo canto.

Sacou o camarada umas grandes lavas de lã, brancas, muito largas, já usadas e sujas, nas quais o alemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.

—Agora, sim! anunciou ele com satisfação.

E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar borboletas.

Depois, levando um dedo à testa:

—Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua filha, senhor Pereira, sua linda filha.

Encolheu o mineiro com furor os ombros e disse em parte a Cirino:

—Fez-se de esquecido só para falar na menina... Veja bem. Este calunga não me bota areia nos olhos.

E acrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara de uma das canastras:

—Agradeço o seu presente, Senhor Meyer, mas se... lhe faz a menor falta .. a menina há de curar-se sem isto...

(continua...)

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