Por Franklin Távora (1879)
— Meu coração ainda vice, por infelicidade minha! E devo eu matá-lo? Devo, sim, a felicidade de Virgínia exige-o. Devo asfixiá-lo com as duas mãos para que depressa expire. Mas qual será o meu estado depois da morte deste sentimento, que veio revelar-me tesouros de delícia íntima que me eram inteiramente desconhecidos? Que infortúnio não foi para mim ver esse homem!
Deste solilóquio, meio racional, meio desvairado, despertou-a o estrondo produzido pelo bater da porteira.
Havia já um minuto que ela andava dentro do cercado. Neste momento, confrontava com uma palhoça abandonada que pertencera a certo negro velho do engenho, e que ficava entre dois cajueiros ramalhudos à beira do caminho.
Maurícia, voltando-se, reconheceu Bezerra num homem que transpusera a porteira e se encaminhava para a casa-grande. Ainda assustada, ainda comovida, ela não hesitou um momento. Entrou na palhoça com medo de ser alcançada por ele.
No mesmo instante, uma mulher que saíra de sob uma meia água coberta de palha cerca de cem passos antes da casa-grande, encaminhou-se para a porteira. Essa meia água estava algum tanto afastada do caminho e quase oculta por uma renque de laranjeiras idosas, que iam terminar na casa de purgar. Cobria a cacimba, onde se lavava a roupa do engenho e dos moradores circunvizinhos. Ordinariamente, havia gente ali; quando não eram escravas, eram mulheres livres dos arredores, que, com permissão de Albuquerque, iam exercer ali, por ser mais fácil, a sua indústria. Às vezes, entre elas, apareciam rapariguinhas novas, algumas bem parecidas e gentis, a cujo número pertencia uma cachopa cor de canela, de cabelos cacheados ao longe, olhos rasgados, boca grande, mas engraçada, formas grosseiras e fornidas. O rapazio do povoado andava caído por ela. Falava-se entre o povo na filha da cabocla Januária — a formosa Janoca — como nos salões de Recife se falava da filha do comendador M..., na sobrinha do Barão de L..., ou na irmão do D. F..., a saber, com admiração e elogios. Januária morava perto do engenho, mas do lado de fora do cercado. Passava a vida desregrada, dando maus exemplos para a filha, para a qual não tinha cuidados de que ela precisava pelos seus verdes anos. Muitas vezes, ia ao Recife, deixando a rapariga a lavar roupa na palhoça, entregue a Deus e à aventura. Nesse dia, com ser domingo, Janoca voltava ao lusco-fusco da meia água para casa; Sobraçava uma trouxa der roupa lavada. Vinha distraída, ou pensando em oculto objeto. Nem ela, nem Bezerra viram Maurícia, porque encontrando-se bem defronte a choupana arruinada, alimentaram curiosos diálogo, que Bezerra certamente não quisera fosse ouvido por sua mulher. A rapariga, com certo disfarce cínico, foi a primeira que o tirou a terreiro.
— Vosmecê bem me podia dar um vestido para o Espírito Santo.
— Não é a primeira vez que me dizes isto, diabrete! Por que achas de te meter comigo, quando há por aí tanto rapaz que pode corresponder às tuas poucas vergonhas?
— Aqui só há dois rapazes que me caíram em graça; mas um, que podia, não quer e até parece não entender disto; vive somente para a sua noiva; é o Sr. Paulo.
O outro quer, mas não pode. É o caixeiro da venda do canto da rua.
— Pois procura outros, que hás de achar. Não vês que sou velho, que já tenho cabelos brancos?
Assim falando, Bezerra volveu os olhos à roda de si como quem queria certificar-se de que ninguém o via a conversar com a cachopa.
— Não se assuste. As moças do engenho saíram a passear com seu Paulo; os negros andam vadiando na povoação. Até mamãe foi ao Recife e me deixou só. — E eu também te deixo aí.
Bezerra deu o andar para o engenho. Janoca, que ficara de pé, defronte da palhoça abandonada, disse com voz lamuriosa: — Por que não me dá o vestido que peço? É uma coisa tão pequena para o senhor!
A estas vozes, Bezerra voltou-se. Janoca tinha um pé firma no chão e o outro posto sobre o cotovelo de um dos cajueiros, o qual ficava na altura dos joelhos de uma pessoa. A saia, já de si curta, lhe descobria, pela atitude em que estava a rapariga, o princípio de uma perna alentada sobre a qual ela se derreava sobraçando a trouxa. A cabeça guarnecida de cachos, os seios salientes, o corpo, que parecia não caber no cabeção e na saia escassa, levemente encurvado sobre o dorso, davam-lhe certos jeitos e certa nudez de ninfa, que o lugar ermo e a hora crepuscular armavam com mil perigos.
— Que diabo irritante! — disse Bezerra.
E não pode vencer a provocação. Voltou.
— O senhor sabe onde moro? É ali embaixo. Se não quiser ir mesmo, pode mandar para lá o vestido que mamãe recebe. Olhe, a casa é ali à mão direita depois e passar a porteira.
Janoca deu o andar.
— Se quer ver a casa, venha comigo. Não tenha medo, que ninguém há de nos ver.
— Sempre quero saber onde é que tens o teu inferno, demônio! — disse Bezerra, seguindo atrás da rapariga.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.