Por Bernardo Guimarães (1872)
Eugênio compreendeu que era tempo perdido instar mais com sua mãe. Resignou-se e conformou-se com sua sorte. Para despedir-se de Margarida restavalhe ainda uma última esperança; essa abrigava-se debaixo do manto propício da noite, pela qual esperou com ansiedade.
Um luar escasso e melancólico esbatia-se frouxamente pelas campinas adormecidas no mais profundo silêncio. Sua luz baça mal disfarçava a escuridão da noite no pequeno vale, em que se achava situada a casa de Umbelina, a qual apenas se distinguia na sombra, escondida embaixo da frondosa copa da figueira como o filhote da ema abrigado à sombra das asas maternas. Como dois gigantes negros abraçando-se no ar, as duas altas paineiras alçavam-se projetando pelo vargedo as sombras colossais. Indolente aragem mal bulia nos ramos dos arvoredos, e somente os pios intercedentes do curiango resvalando pelo chão no vôo rasteiro quebravam o silêncio daquela solidão.
De entre as sombras das paineiras surgiu um vulto esguio e lesto à semelhança de um silfo aéreo que, parecendo nem tocar a terra com os pés, atravessou rapidamente o vargedo, penetrou no terreiro, e sumindo-se por baixo da grande figueira foi colocar-se bem junto à janelinha de balaústres.
A favor daquela mudez profunda quem de ouvido afiado estivesse encostado à cerca do terreiro, ouviria um ciciar de vozes abafadas segredando ternuras e entreveladas de beijos, suspiros e soluços a confundirem-se com o frêmito da folhagem, que de quando em quando estremecia a uma frouxa lufada de viração espreguiçando-se nos ramos da figueira.
— Adeus, Margarida!... adeus!
— Pois já?... um momento! um instantezinho ainda.
— Pois sim... mas se meu pai der por minha falta... não deve tardar a amanhecer... mais um beijo, Margarida!...
— Toma... tu hás de me querer bem sempre, não é assim, Eugênio?
— Sempre! eu te juro, torno a jurar; padre, nunca hei de ser. Adeus!...
— Adeus, Eugênio...
— Ah, não chores assim, que me cortas o coração. Enxuga essas lágrimas, para que eu possa ter ânimo de ir-me embora.
— Deixa-me chorar, Eugênio. Que hei de eu fazer?... hei de orar sempre até que voltes.
— E hei de voltar, Margarida; tanto hei de pedir, instar, rogar a minha mãe, que ela há de mandar buscar-me, e um dia, Margarida, um dia hei de ser homem, e havemos de viver juntos, e não haverá poder na terra que nos possa separar.
— Mas... meu Deus! até lá eu morro de saudades.
— Não, Margarida; hei de fazer tudo para sair do seminário, e voltar o mais breve possível... ah! não chores mais assim... já não te pedi?...
— Pois bem... olha, já não estou mais chorando... mas... não fiques lá muito tempo, não; ouviste?... volta, volta depressa, Eugênio.
— Fica sossegada, meu amor, eu hei de voltar. Adeus... um último beijo ainda...
Este diálogo era suspirado com voz trêmula e abafada entre lágrimas, e ninguém poderia adivinhar que fundas tristezas, que ansiosas e cruéis inquietações se exalavam naqueles tímidos e sentidos arrulhos, que mais pareciam vagos murmúrios da solidão perdendo-se nas asas da brisa, confundidos com o ramalhar da folhagem e o burburinho da fonte vizinha.
Um momento depois, o mesmo vulto, que vimos atravessar o vale rápido e leve como um silfo noturno, lá se ia vagaroso e como que se arrastando a custo a se esgueirar pelas sombras do vargedo. De quando em quando parava, voltava-se para trás, apertava as mãos convulsivamente contra o peito; um estremeção como de um soluço agitava o corpo, e com a voz que mais era um gemido murmurava Margarida!
Dir-se-ia alma penada ou duende da noite, que com a aproximação do dia se recolhia ululando aos fúnebres lugares donde havia saído.
CAPÍTULO XV
Os seminaristas de Congonhas do Campo viam com certa surpresa e assombro ao anoitecer, depois que a sineta havia vibrado a hora do recolhimento, um de seus companheiros, pálido e abatido atravessar de braços cruzados e olhos baixos a longa fila de dormitórios, e encaminhar-se para o quarto do padre diretor e ali ficar largo tempo em íntima e misteriosa prática. Isto tinha lugar duas ou três vezes por semana.
Esse estudante, que antes de partir para as férias, tímido e acanhado ao princípio era por fim um menino travesso e brincalhão como os outros, ia-se tornando um moço cada vez mais tristonho e misantropo.
No passeio e recreação acompanhava os outros como um autômato, com os olhos ou pregados no chão ou alongados além pelos horizontes e parecendo estranho a tudo que em derredor dele se passava. Grave e pausado como um velho ermitão formava um vivo contraste com a turba jovial de seus gárrulos e travessos companheiros; dir-se-ia o triste e moroso noitibó perdido entre um bando de inquietos e chilreadores melros.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.