Por Bernardo Guimarães (1875)
— E quanto não me custou isso, meu amigo! — respondeu Álvaro. — Veio quase violentada. Há muito tempo que procuro convencê-la por todos os modos, que uma senhora jovem e formosa, como é ela, escondendo seus encantos na solidão, comete um crime, contrário às vistas do Criador, que formou a beleza para ser vista, admirada e adorada; pois sou o contrário desses amantes ciumentos e atrabiliários, que desejariam ter suas amadas escondidas no âmago da terra. Argumentos, instâncias, súplicas, tudo foi perdido; pai e filha recusavam-se constantemente a aparecerem em público, alegando mil diversos pretextos. Vali-me por fim de um ardil; fiz-lhes acreditar que aquele modo de viver retraído e sem contato com a sociedade em um país, onde eram desconhecidos, já começava a dar que falar ao público e a atrair suspeitas sobre eles, e que até a polícia começava a olhá-los com desconfiança: mentiras, que não deixavam de ter sua plausibilidade...
— E tanta, — interrompeu o doutor. — que talvez não andem muito longe da verdade.
— Fiz-lhes ver, — continuou Álvaro, — que por infundadas e fúteis que fossem tais suspeitas, era necessário arredá-las de si, e para isso cumpria-lhes absolutamente freqüentar a sociedade. Este embuste produziu o desejado efeito.
— Tanto pior para eles, — retorquiu o doutor; — eis aí um indício bem mau, e que mais me confirma em minhas desconfianças. Fossem eles inocentes, e bem pouco se importariam com as suspeitas do público ou da policia, e continuariam a viver como dantes.
— Tuas suspeitas não têm o menor fundamento, meu doutor. Eles têm poucos meios, e por isso evitam a sociedade, que realmente, impõe duros sacrifícios às pessoas desfavorecidas da fortuna, e eles... mas ei-los, que chegam... Vejam e convençam-se com seus próprios olhos.
Entrava nesse momento na ante-sala uma jovem e formosa dama pelo braço de um homem de idade madura e de respeitável presença.
— Boa noite, senhor Anselmo!... boa noite, D. Elvira!... felizmente ei-los aqui! — isto dizia Álvaro aos recém-chegados, separando-se de seus amigos, e apressurando-se para cumprimentar a aqueles com toda a amabilidade e cortesia. Depois oferecendo um braço a Elvira e outro ao senhor Anselmo, os vai conduzindo para as salas interiores, por onde já turbilhona a mais numerosa e brilhante sociedade. Os três interlocutores de Álvaro, bem como muitas outras pessoas, que por ali se achavam, puseram-se em ala para verem passar Elvira, cuja presença causava sensação e murmurinho, mesmo entre os que não estavam prevenidos.
— Com efeito!... é de uma beleza deslumbrante! Que porte de rainha!...
— Que olhos de andaluza!...
— Que magníficos cabelos!
— E o colo!... que colo!... não reparaste?...
— E como se traja com tão elegante simplicidade! — assim murmuravam entre si os três cavalheiros como impressionados por uma aparição celeste.
— E não reparaste, — acrescentou o Dr. Geraldo, — naquele feiticeiro sinalzinho, que tem na face direita?... Álvaro tem razão; a sua fada vai eclipsar todas as belezas do salão. E tem de mais a mais a vantagem da novidade, e esse prestígio do mistério, que a envolve. Estou ardendo de impaciência por lhe ser apresentado; desejo admirá-la mais de espaço.
Neste tom continuaram a conversar, até que, passados alguns minutos, Álvaro, tendo cumprido a grata comissão de apresentador daquela nova pérola dos salões, estava de novo entre eles.
— Meus amigos, — disse-lhes ele com ar triunfante. — convido-os para o salão. Quero já apresentar-lhes D. Elvira para desvanecer de uma vez para sempre as injuriosas apreensões, que ainda há pouco nutriam a respeito do ente o mais belo e mais puro, que existe debaixo do Sol, se bem que estou certo que só com a simples vista ficaram penetrados de assombro até a medula dos ossos.
Os quatro cavalheiros se retiraram e desapareceram no meio do turbilhão das salas interiores. Foram, porém, imediatamente substituídos por um grupo de lindas e elegantes moças, que cintilantes de sedas e pedrarias como um bando de aves-do-paraíso, passeavam conversando.
O assunto da palestra era também D. Elvira; mas o diapasão era totalmente diverso, e em nada se harmonizava com o da conversação dos rapazes. Nenhum mal nos fará escutá-las por alguns instantes.
— Você não saberá dizer-nos, D. Adelaide, quem é aquela moça, que ainda há pouco entrou na sala pelo braço do senhor Álvaro?
— Não, D. Laura; é a primeira vez que a vejo, parece-me que não é desta terra.
— Decerto; que ar espantado tem ela!... parece uma matuta, que nunca pisou em um salão de baile; não acha, D. Rosalina?
— Sem dúvida!.., e você não reparou na toilette dela?... meu Deus!... que pobreza! a minha mucama tem melhor gosto para se trajar.
— Aqui a D. Emília é que talvez saiba quem ela é.
— Eu? por quê? é a primeira vez que a vejo, mas o senhor Álvaro já me tinha dado notícias dela, dizendo que era um assombro de beleza.
— Não vejo nada disso; é bonita, mas não tanto, que assombre.
— Aquele senhor Álvaro sempre é um excêntrico, um esquisito; tudo quanto é novidade o seduz. E onde iria ele escavar aquela pérola, que tanto o traz embasbacado?...
— Veio de arribação lá dos mares do Sul, minha amiga, e a julgar pelas aparências não é de todo má.
— Se não fosse aquela pinta negra, que tem na face, seria mais suportável.
— Pelo contrário, D. Laura; aquele sinal é que ainda lhe dá certa graça
particular...
— Ah! perdão, minha amiga; não me lembrava que você também tem na face um sinalzinho semelhante; esse deveras fica-te muito bem, e dá-te, muita graça; mas o dela, se bem reparei, é grande demais; não parece uma mosca, mas sim um besouro, que lhe pousou na face.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.