Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Um mez antes dos exames do seu quinto anno, Luciano soube com verdadeiro pezar no paquete inglez acabava de chegar ao Rio de Janeiro Guilherme, com a sua familia, e foi bastante fraco para nem ao menos ir fazer uma visita ao primeiro amigo de seu pai; e recebendo deste por isso mesmo uma severa reprehensão e uma ordem terminante para ir abraçar o recémchegado, o estudante independente obedeceu, mas de um modo ainda mais reprehensivel : procurou Guilherme em sua casa de commercio, e merecendo um convite para ir jantar e passar alguns dias na chácara do negociante, desculpouse com os estudos prolungados do fim do anno lectivo, e nem uma só vez appareceu a Dyonisia.
De sua parte Guilherme pagou a Luciano a visita, e não o procurou mais.
Entrando no gozo de suas ferias e já de caminho fazenda de seu pai, o jovem estudante recebe uma noticia desesperadora : o seupagem que lhe viera trazer os cavallos para a viagem, annunciou-lhe que havia em casa grande alegria; porque Guilherme e sua familia tinhão na ultima semana chegado á sua fazendo, e que desde então os dous velhos amigos quasi que vivião juntos, vingando-se de quinze annos de separação.
O annuncio era pelo menos desagradavel. O estudante previo que tinha de entrar em novas luctas, de ser obrigado a encontrar-se com Dyonisia, de fallar-lhe e de tratal-a com a consideração que todo o cavalheiro deve a uma senhora, e finalmente de resistir ao mesmo tempo ás ordens e, mais do que ás ordens, aos pedidos de seus pais, e aos obséquios de uma familia interessada em chamal-o ao seu gremio.
Luciano concebeu mil projectos de opposição e de resistencia: lembrou-se de diversos typos que estudara nos romances e nos theatros; pensou em mostrar-se extravagante como o peior dos libertinos, frio como o mais profundo dos egoistas, grosseiro como um barão que tivesse começado por varredor de armazém ; mas por fim de contas, quando entrou no campo da fazenda de seu pai, desprezou como indignos todos esses planos, e disse cornsigo :
— Nada... nada: hei de mostrar-me tal qual sou, e resistir com um simples
— não quero
— que é a expressão da minha vontade, e a prova da minha independencia.
II.
O tempo das ferias ia correndo de um modo inteiramente diverso do que calculara o estudante, que por isso mesmo começava a sentir-se desapontado.
Luciano esperara ter de sustentar uma lucta incessante, oppondo-se aos projectos do seu casamento com Dionysia, e encontrara seus pais quasi indifferentes e semelhante respeito.
É verdade que no dia seguinte ao da sua chegada, Eugênio lhe fallára sobre aquelle assumpto; logo, porém, que ouvira suas primeiras palavras annunciadoras de opposição e de repugnancia, não só deixara de insistir, mas ainda lhe affirmára que não se affligia com isso.
E sua mãi, abraçando-o, lhe dissera ao mesmo tempo: « Não seremos nós, meu filho, que exigiremos jamais de ti um sacrifício doloroso : um casamento que te repugna, não poderia fazer a tua felicidade, que é tudo quanto no mundo desejamos. »
Luciano receiára também ser obrigado a entrar em estreitas relações com a familia de Guilherme, e ter portanto de cumprir para com Dionysia pelo menos os deveres de cortezia; e no entanto apenas foi com seu pai visitar uma vez aquelle bom amigo, e ainda nessa oceasião não encontrou em casa nem Dionysia nem sua mãi; depois um incommodo soffrido por esta impedia as visitas que ella poderia fazer á sua amiga, a mulher de Eugênio, que pela sua parte nunca levou o filho em sua companhia quando ia á fazenda de Guilherme.
Por outro lado, o pai de Dionysia encontrandose muitas vezes com Luciano, jamais deixou de tratal-o com estima, e mesmo com carinho ; mas também nunca lhe dirigio uma unica palavra que fizesse lembrar a idéa daquelle mento, que tão afagada tinha sido pelo sentimento generoso da amizade.
A principio Luciano applaudio-se desta situação pacifica, que elle attribuio a uma victoria brilhante alcançada pela força da sua vontade : em breve, porém, começou a sentir-se fatigado de uma paz tão inalterável, e contrariado por não ver uma só demonstração de sentimento pela sua decisão que destruirá um plano de futuro.
Em seu orgulho estava convencido de que pelo menos o pai de Dionysia devia mostrar-se exasperado por não ter podido felicitar sua filha dando-lhe um noivo de tanto merecimento.
O contentamento ou a serenidade das duas familias pareceu-lhe indifferença, e a indifferença amargou-lhe como um insulto.
O estudante incommodou-se, e principiou a aborrecer-se das
férias que estava gozando; queria ouvir dizer que Dionysia estava furiosa
contra elle, e ninguém lhe fallava delia ; desejava que seus pais de novo se
esforçassem por obrigal-o a casar com a tal noiva da infancia, e seus pais
mostravam-se absolutamente esquecidos de semelhante projecto.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.