Por José de Alencar (1872)
- Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela.
- Para ti, portanto, não há gratidão?
- Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo.
Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.
O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão:
- Foi por mecê, disse a voz submissa.
- Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?
- Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não tenho para restituir...
- Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!
Jão Fera estremeceu:
- Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade.
- Desempenha!
- Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:
- Não tenho quarenta mil réis!
Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta.
- Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...
A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:
- Jão Bugre é um homem de honra!
- Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome!
Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma.
- Jura que o respeitarás!
- Não posso! murmurou o capanga com um arranco.
- Jura!
- Minha palavra!...
Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia do coração, e tamanha desolação cobria aquela organização possante e indômita, agora esmagada sob a mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente.
- Toma, vende e desempenha a tua palavra!
E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.
- O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto, tão cedo estava da agonia daquele transe.
- O relicário de minha mãe!
Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.
Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a ranger.
Berta o reconheceu.
Era Brás, o idiota.
XVI
A sura
Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se outrora à margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.