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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Depois do último encontro com Ricardo, naquela manhã, teve desejo de conhecer o advogado; desejo que revelou com franqueza na ocasião do almoço, pedindo a Guimarães que o apresentasse. Não confiando porém na promessa do moço, ao levantar-se da mesa, tomou o braço do pai e preveniu-o de sua intenção de mandar Daniel convidar a Ricardo da parte dele, Soares. 

- Manda! respondeu o pai com indiferença, habituado a confiar todas essas minúcias domésticas a mulher, que as abandonava à filha. 

O Daniel partiu imediatamente; e o resultado de sua incumbência  acabava ele de comunicá-lo à moça, com a sua imperturbável gravidade. 

- Is he coming? (Vem?), perguntou Mrs. Trowshy. 

Guida disse que não, com um ligeiro aceno de cabeça. 

- Why not? (Por que não?) 

Novo aceno exprimiu  a ignorância da moça a respeito do motivo por que Ricardo não vinha. Contudo o tato de sua alma de mulher lhe indicava, embora vagamente, a natureza daquele motivo. 

- Ele é pobre, pensava ela, muito pobre; há de ser suscetível portanto. 

Talvez Ricardo se ofendesse com o convite, feito por intermédio de um criado; e a sua resposta de que havia de “escrever agradecendo”, manifestava bem seu pensamento: era mais do que um simples criado: era um homem da confiança de seu pai. O convite por este intermédio parecia-lhe tão delicado, como por carta, sem a solenidade que ela justamente não lhe queira dar. 

Se Guida desejava anteriormente a presença do moço em sua casa, agora mais que nunca. Duas razões atuavam em seu espírito. A contrariedade do obstáculo e a vontade de desvanecer uma ofensa involuntária. O que fora até então uma lembrança delicada apenas, mudava-se em capricho. 

Capricho? Quem não sabe o que isso é? A palavra o está dizendo. É a alma da mulher que se precipita sobre uma idéia, com a mesma temerária vivacidade e petulância da cabra selvagem a arremessar-se pelas arestas do despenhadeiro. 

Guida sentou-se ao piano e começou a preludiar. Não tardou que o Guimarães se aproximasse, atraído pelo ímã, e bordasse sobre o tema da música uma dessas falas que parecem um crochê de palavras de diversas cores. A moça tomou interesse na conversa, e prolongou-a por algum tempo; mas interrompeu-se de repente como se lhe ocorresse uma idéia: 

- Não pretende apresentar hoje seu amigo, Sr. Guimarães?

- Como? Que amigo? 

- Já se esqueceu? Com efeito! 

- Ah! lembro-me. O Nunes. Mas hoje? 

- Então quando há de ser? 

- Qualquer outro dia. 

- Se não for hoje, que ele está na Tijuca, nunca mais o senhor achará uma ocasião para apresentá-lo. Amanhã estou certa que já nem se lembrará disso! 

- Sou esquecido, é verdade; mas da senhora, D. Guida, lembro-me até demais. 

- Pois lembre-se menos de mim, para se lembrar mais do que prometeu a meu pai. Vá buscar o amigo! 

- Agora? 

- Neste momento, disse Guida levantando-se. 

- Mas se não sei onde ele está! 

- Daniel há de saber. Vou dizer-lhe que sele o seu cavalo e o acompanhe. 

Chegando à porta, a moça deu as ordens necessárias. 

- Mas, D. Guida, confesso-lhe que poucas relações tenho com o Nunes; depois que nos formamos há seis anos, é a primeira vez que nos encontramos. Mesmo em São Paulo, nunca fomos amigos; apenas conhecidos. Chegou à corte, não o visitei. Não me julgo pois com direito a procurá-lo assim de repente... 

- Tudo isto o senhor devia ter pensado antes de se comprometer: agora tenha paciência. Seu pai costuma dizer que dívidas não se perdoam. 

- Ainda há uma razão. Eu sei que o Nunes pôs aqui um escritório de advocacia, porque vi o anúncio; mas se procede bem, se é homem fino, capaz de entrar na primeira sociedade, ignoro. Não posso portanto tomar sobre mim a responsabilidade de trazer à casa do comendador um moço que pode praticar algum ato... 

Guida sorriu. 

- Esse receio não tenha: eu o absolvo da responsabilidade.

- Mas o comendador? 

- Fica por minha conta. 

- Não! não devo abusar. 

Guida olhou o moço com ar resoluto: 

(continua...)

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