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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Então a senhora quer mais bem a êle do que a mim? atalhou a donzela voltando-se para a cabra com uma feição graciosa que debalde pretendia tornar-se em carranca. 

— É para pagar o mais que eu lhe quero a você, meu querubim, replicou Justa rindo-se.

— Não deve ser! 

— Mas se é! 

Flor dirigiu-se outra vez à mamãe bebé. 

— E que notícias me dá de seu querido, dona? Bem mostra que é seu filho; ingrato como a mamãe. 

— Ela que apareceu, é que Arnaldo não tarda por aí. 

A cabra fitou seus olhos de topázio cheios de inteligência na donzela; volveu a cabeça para fora e afastando-se com o mesmo passo cadente foi colocar-se no meio da varanda, voltada para a porta. 

Aí ficou imóvel até que, decorridos instantes, ergueu a pata dianteira e começou com ela a bater no chão, recuando a passo e passo para logo depois avançar e retrair-se de novo. Afinal caminhou direito à porta. 

Arnaldo pisava a soleira. 

O sertanejo dos dias antecedentes, o filho do deserto, livre e indômito como o cervo das campinas, ficou lá fora. Quem entrou foi um mancebo tímido e acanhado no qual todavia a aparência rústica do trajo e o enleio do gesto não escureciam a nativa beleza do perfil e o molde airoso do talhe. 

O filho e a mãe abraçaram-se estreitamente no meio da varanda, onde se encontraram correndo um ao outro. Depois dêsse desafôgo das saudades, Justa voltou ao estradinho levando o filho pela mão até o lugar onde ficara D. Flor. 

— Adeus, Arnaldo! disse a donzela com ingênuo prazer. 

O sertanejo parado em face da donzela com os olhos baixos e respondeu em voz submissa: 

— Adeus, Flor. 

Ou por espontâneo movimento, ou para subtrair-se ao enleio dessa posição, Arnaldo voltou-se para a cabra que lhe seguira os passos, e estendeu-lhe as mãos. O carinhoso animal pousou nas palmas de seu filho de leite as patas dianteiras, e daí com um salto alcançou-lhe as espáduas. 

Ficaram assim os dois abraçados. Arnaldo prolongava de propósito a carícia, perplexo sôbre o que devia fazer. Por fim a cabra separou-se e foi sentar-se defronte no seu canto, com os olhos fitos no grupo. 

— E a mim não se abraça? perguntou D. Flor a sorrir. 

Arnaldo estremeceu. Vendo-o atônito e mudo, Justa impeliu-o ao de leve pela mão. 

— Anda daí, Arnaldo; abraça tua colaça. Estás tonto da viagem? 

— Deixe-o; eu vou abraçar mamãe bebé, disse a donzela, zombando do vexame de seu irmão de leite. 

— Ora vejam que partes! insistiu a ama.  

Levantando-se passou o braço pela cintura de cada um, obrigando-os ambos a aproximarem-se. 

D. Flor pousou timidamente a mão no ombro do rapaz e sua cabeça roçando-lhe o peito ouvia-lhe as rijas e violentas palpitações. Quando desprendeu-se do rápido abraço leve rubor carminou-lhe as níveas faces; mas apagou-se logo no gesto da linda fronte, a qual erguera-se com a expressão altiva e senhoril que era o toque de sua beleza. 

Arnaldo não se animara a cingir o talhe da donzela. Se tocara-lhe o corpo, fôra impulso da mãe; logo, porém, recuara voltando as costas para esconder a veemente comoção. 

Sua fisionomia tinha a lívida rigidez de um espectro. Calcava a mão sôbre o peito para comprimir o coração, que saltava-lhe aos ímpetos, como um poldro selvagem. Deu alguns passos para a porta vacilando como um ébrio. 

— Onde vais tão cedo, Arnaldo? perguntou Justa. 

Nesse momento soou lá fora, para o lado da várzea, grande estrépito. O gado ugia; os cães latiam furiosos e no meio do alarido destacavam-se vozes humanas a clamar: 

— Ecou!… Ecou!… Arriba, gente! Isca, Roldão!… Valente!… 

Ao primeiro rumor, Arnaldo assumiu-se vibrando a fronte. Já era outro homem, ou antes, tornara ao que era. Do peito vigoroso rompeu-lhe o brado formidável que nenhum vocábulo traduz, rugido humano com que o sertanejo afirma no deserto o império do rei da criação. De um ímpeto ganhou a porta e desapareceu. 

 

XII – Alvorôço  

 

O ponto de onde vinha o alarido era a várzea fronteira à casaria da fazenda. 

O capitão-mór Campelo saíu fora ao terreiro para conhecer a causa do alvorôço. Agrela o seguia. 

Não tardou que se reunissem ao grupo D. Genoveva e D. Flor, que chegara acompanhada por Justa, e curiosa de saber a razão do ímpeto de Arnaldo. 

As criadas e escravas acudiam à janela enquanto os fâmulos e agregados corriam ao lugar do acontecimento para melhor verem o que alí estava passando, e sendo possível, tomarem parte na função. 

(continua...)

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