Por José de Alencar (1873)
— Rabadilha de frade!...
E todo este berredo cortado de assobios estridentes, e acompanhado pela matinada infernal de umas matracas improvisadas com taquara rachada, e pelo ronco de um imenso caramujo.
Era autor dessa grazinada de ensurdecer, um bando de estudantes leigos, a quem o Ivo tivera o cuidado de avisar, prometendo-lhes um fartão de riso, sem contudo explicar-lhes a peça que ia pregar. Sempre houve, e ainda subsiste uma birra dos estudantes leigos com os seminaristas ou meninos do coro, a quem apelidam de formigão por achar-lhes certa semelhança com a saúva, uma das espécies desse térmita. Com que prazer pois não aceitaram os rapazes o convite do Ivo, e não se esconderam na vizinhança por detrás de uma cerca, à espera do momento?
Surpreendidos com o aparecimento dos estudantes, e vendo-se na presença de testemunhas, os escreventes que sabiam o valor da prova, desistiram da sova que se dispunham a dar. Além de que percebendo-se afinal a causa dos repetidos trambolhões dos minorenses, dispararam todos em uma estrepitosa gargalhada.
Fustigados por esse riso implacável, Cláudio e os companheiros arrancaram tão furioso sacalão, que afinal escaparam-se deixando no anzol um farrapo da sotaina.
XIX
MOSTRA-SE A VERDADE DOS DOIS ANEXINS, QUE “O
BOCADO NÃO É PARA QUEM O FEZ” E QUE “PAGA
O JUSTO PELO PECADOR”
Restituído ao tamborete furado, que lhe servia de curul, o Sebastião Ferreira repotreou-se contente de si, e tossiu uma risada, o que antes só lhe acontecera duas vezes na sua vida de tabelião: a primeira, ao receber a carta que o confirmava no oficio; a segunda, quando teve a sentença favorável nos embargos opostos ao esbulho que o escrivão da provedoria tentou fazer de suas prerrogativas.
A lição famosa dada aos minoristas do prelado vingava-o não só das contínuas amofinações com que eles o atormentavam e à família todos os dias, mas sobretudo do insólito desacato de que fora vítima quando pretendeu desalojá-los da pitombeira.
— Quem seria o da lembrança! disse o tabelião para os escreventes que olhavam-no embasbacados. Olhem que merecia umas páscoas; e eu que lhas daria de boa-vontade.
Entreolharam-se os escreventes, como consultando a resposta.
— Então não atinam com o cujo?
— A peça foi de truz; agora quem a pregou!... Isso lá como se pode saber! acudiu um.
— Ele parece que não passou... ia dizendo o outro.
— Pois não estão vendo que foi o sonso do Sabino? atalhou o tabelião.
O bioco do rapaz, com a cabeça entre os ombros, fingindo uma certa vergonha de ser descoberta sua estrepolia, escondia de modo a dar-lhe mais tom, um sorriso maligno, empastado nos lábios amarelos.
— Eu não! ... respondeu ele dando uma cotovelada na ilharga, o que era sinal certo de grande emoção.
Essa negativa, com o sotaque particular que lhe imprimiu o rapaz, e o revirado d’olhos que lhe servia de asterisco, era a mais ingênua das confissões voluntárias.
São de todos os tempos e de todos os dias estes e quejandos disfarces; pois no fim de contas a lei dêste mundo tem por mote aquele versículo do bom Virgílio: Sic vos, non vobis.
Abençoados e felizes da terra, são os vobis para quem trabalhamos nós outros. Na cabeça do rol estão os primazes vobis coroados, que se divertem à nossa custa, atirando às rebatinhas dos grandes vassalos sacos de ouro e maços de cédulas, fabricados com o suor do pobre e pêlo que tosam a este povo bonacho!
Voltou enfim o cartório ao habitual sossego e modorra. Acabada a féria, na saída, o tabelião (espantoso sucesso), atirou um peteleco na venta do Sabino, e introduziu-lhe sorrateiramente na munheca um tostão de prata.
Assim foram surripiadas ao Ivo as honras e, o que mais é, o proveito da engenhosa pescaria de formigões, que tivera a fortuna de engendrar não somente para descanso de Marta e alívio seu, como para entrar nas boas graças do tabelião.
Também o culpado fora ele, que durante os trambolhões dos minorenses se deixara ficar escondido atrás da cerca, no meio dos estudantes, que instigava, mas longe da porta onde ficara atado o cordel do anzol.
Entretanto os minorenses, desesperados com a vergonha que tinham sofrido, e abespinhados como os maribondos quando os assanham, ardiam por tomar sua desforra do tabelião, a quem principalmente atribuíam a armadilha de que tinham sido vítimas.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.