Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Foi no dia em que eu fiz treze anos: jantaram e passaram a noite comigo duas companheiras de colégio, ambas dois anos mais velhas do que eu. D. Luisinha e d. Leopoldina. Leopoldina era viva como você, d. Felícia; Luisinha maliciosa como você, d. Mariquinhas.
– Obrigada pelo elogio, disse esta.
– Deixe-a falar, acudiu Felícia.
Celina continuou.
– Três moças que se conhecem desde a infância, que brincaram juntas, e juntas estudaram, têm sempre tantas coisas para se dizer, que a certa hora nós nos escapamos da sala, e fugimos para conversar sem testemunhas, escondidas no meu quarto. Foi neste mesmo quarto! disse a moça, cortando com um suspiro sua narração.
– Neste mesmo quarto! murmuraram como admiradas daquela coincidência, as duas ouvintes.
– Passamos muito tempo, prosseguiu a “Bela Órfã”, a rirmo-nos muito, lembrando-nos do passado e de nossas travessuras; e depois misturamos com essas alegrias tantas saudades... tantas... e tão grandes, que estivemos a ponto de chorar. Depois sonhamos também com o futuro, e nossas cabeças de meninas o iam desenhando sempre tão bonito... tão bonito!... enfim tivemos vontade de falar no presente, e Luisinha deu-me um beijo e me disse:
– Já estás moça, Celina!
– É verdade, disse Leopoldina; já estamos todas três moças; e, continuou ela rindo-se, aqui para nós, somos bonitas.
– E como é bom ser moça, quando se é bonita, tornou Luisinha; os velhos nos admiram, as outras senhoras nos invejam, e os moços nos amam.
– Antes todos nos amassem, disse eu.
– Como ela é!... exclamou Leopoldina rindo-se muito.
Eu fiquei admirada daquele tanto rir, que me parecia muito fora de tempo.
– Em parte também eu sou assim, tornou Luisinha; não amo a ninguém ainda; mas quisera que todos bebessem os ares por mim. Quando eu passo junto de um homem, a quem vejo mesmo pela primeira vez, e ele me olha de certo modo e acompanha com a vista, ou me segue, eu gosto... confesso que gosto.
– Oh! sim, disse Leopoldina; mas é tempo de fazermos um ajuste.
– E qual? perguntei.
– Logo que uma de nós amar, di-lo-á em confidência às outras.
– Eu comecei então a pensar que havia algum grande mistério na vida, que essa palavra – amar – queria dizer.
– Pois bem, tornou Luisinha, eu estou pronta... é um belo ajuste; porque eu nunca terei vergonha de o dizer. Quando amar, hei de amar bem, e a quem bem o merecer.
– Sim!... e também eu, disse a outra.
– Não há de ser com seu ouro e suas riquezas que poderá um homem agreste, frio, e sem espírito, comprar o meu coração.
– Oh! sim!... exclamou Leopoldina.
– Nem há de ser o velho que poderia ser meu pai, quem, a preço de suas carruagens ou de sua brilhante posição na sociedade, de suas comendas ou de seus palácios, ganhará a minha mão.
– Oh!... sim!...
– Há de ser um moço... bem moço, pouco mais velho que eu... bastam quatro ou cinco anos; um moço bonito, com cabelos anelados, olhos brilhantes, dentes claros, sorrir gracioso, e mãos finas; com espírito cultivado, gênio alegre, e...., não precisa ser rico.
– Ora! para que dinheiro?... acudiu Leopoldina.
– E tu que dizes, Celina?... indagou Luisinha, dirigindo-se a mim.
Eu fiquei em silêncio por algum tempo. Mas enfim, corando muito de minha ignorância, perguntei:
– O que é amar?
Minhas duas amigas começaram a rir tanto... tanto... que por fim lhes causou piedade a perturbação em que me punha a hilaridade que eu provocara.
– Pois não sabes o que é amar?...
– Amo a meus pais, a meus parentes, a minhas amigas, e aos amigos de meus pais. O mais não sei.
– Coitada! murmurou Leopoldina.
– Pobre criança!... acrescentou a outra.
Eu me achava realmente confundida.
– Luisinha, explica-lhe o que é amar, disse Leopoldina.
Então Luisinha tomou uma de minhas mãos entre as dela, e me falou assim:
– Celina, eu vou dizer-te o que é amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão, nem nosso amigo; escuta. Nem sempre pertencemos a nossos pais. Chega um dia em que a nossa vida começa a correr de outro modo, e deixando aqueles que nos deram a existência, passamos a ser a eterna companheira de um homem, que nos deve amar e trabalhar para nós, que reparte conosco seus prazeres e seus pesares; que forma com sua companheira um ente só; que é o nosso melhor amigo, e mais do que nosso irmão. Ora pois, escolher, mesmo sem se querer, sem se sentir, mas escolher com os olhos e com o coração entre mil, entre todos um homem, ao qual desejamos pertencer desse modo; pensar nele de dia, sonhar com ele de noite, estar triste em sua ausência, tremer de alegria e de pejo a seu lado, resistir às ordens de um pai, que manda esquecê-lo, e lembrá-lo ainda mais depois disso, jurar ser dele ou de ninguém, e sofrer tudo por ele: eis aqui o que é amar.
– Ah! Celina! exclamou Mariquinhas interrompendo-a; a tua camarada tinha aproveitado muito no colégio!...
– Não a interrompas, disse Felícia.
Celina continuou:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.