Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“A peste chegou até ao Brasil. Esta nação, criança, que ainda mal andava sustida pelos bracinhos, levantou orgulhosa a cabeça, dizendo que era um gigante, que não corria porque lhe atavam as pernas; que era uma águia, que não voava porque lhe prendiam as asas; que queria, que havia de caminhar só e livre; e, o que é mais, Honorina, um príncipe, um homem, em cujas veias corria o sangue mais nobre do mundo, foi o mesmo que, cheio de mal-empregado entusiasmo e bravura, tomou a dianteira ao povo, e bradou — independência ou morte!
“Portanto, a embriaguez se tornou mais notável. As idéias deste século pervertido são contagiosas; povos inteiros padeceram o mesmo mal; o brasileiro não podia formar exceção.
“E não se falou mais aqui senão em liberdade, câmaras, deputados e constituição...
“Os velhos tornaram-se crianças... os meninos não tomaram mais a bênção aos pais... as moças desprezaram os véus da modéstia e a vida sossegada da solidão para ir com o rosto bem à mostra, e, carregadas de adornos e de modas indecentes, dançar em saraus, onde a licença e o desregramento tomaram o nome de civilização e de progresso!
“Tudo isso foi devido à liberdade...
“A peste também entrou em nossa família: teu avô, teu tio e eu nos conservamos firmes em nossos antigos princípios, com as belas inspirações dos nossos antepassados, desprezando todos esses erros, detestando todos esses crimes da época, todas essas mentiras de liberdade, igualdade, direitos do homem, constituição, e não sei quê mais! tenho finalmente por única glória sermos sempre devotados ao altar e trono, e mais nada.
“No meio de nós, porém, levantava-se uma cabeça de louco, a criava-se um coração de serpente.
“Teu pai, Honorina, apesar da educação que lhe demos, e dos exemplos que sem cessar lhe oferecíamos, tinha-se feito sectário das novas idéias: era um liberal delirante, que trouxe no braço a sua legenda, como na cabeça as suas loucuras; que cem vezes se enfeitava com flores e folhas para ir bramar nas praças, para tomar parte nas orgias do povo desenfreado.
“Era uma cabeça de louco.
“E o filho de Raul, teu primo Lauro, Honorina, desprezando os conselhos de nós todos, a despeito dos castigos que seu pai lhe fazia sofrer, cedendo a seu gênio inquieto e desastrado, crescia correndo pela estrada da perdição. Vivo e sagaz, travesso e imprudente como nenhum outro; sempre cheio de resolução e audácia, possuindo talento e habilidade em alto grau, poderse-ia fazer dele um grande homem, se o tempo em que vivemos não bastasse para pervertê-lo. Tentamos aproveitá-lo, e o fizemos estudar; compreendia as lições com facilidade espantosa, progredia rapidamente; mas ao mesmo tempo opunha-se com repreensível obstinação às idéias de seus mestres, quando não lhe agradavam; ria-se diante deles, se os ouvia dizer o que ele chamava um absurdo; abandonava as aulas para passar horas inteiras nas galerias da câmara dos deputados; decorava os discursos mais veementes, e arremedava os mais fortes oradores; enfim, mesmo na minha presença, atrevia-se a combater e zombar das minhas nobres crenças, a que ele ousava dar o nome de prejuízos dos séculos de escravidão e ignorância!
“Era um coração de serpente.
“Não: nem os avós, nem o pai desse menino protegerão com criminoso desleixo ou estúpida indiferença os erros, filhos da sua má índole; mas ele tinha uma mãe... indulgente como quase todas; uma mãe, que o amava extremosamente, que fechava os olhos às suas faltas, e que, finalmente, sem o querer, cooperou para a sua perdição...
“Ao correr dos seus dezesseis anos, esse menino tinha concluído os seus estudos preparatórios e redobrado a viveza, a resolução, a audácia e a insolência que lhe eram naturais.
“Então... a serpente mordeu-nos.
“Tu, Honorina, chegavas à época feliz dos nove anos... De antemão nós fruíamos o prazer de ver brilhar esse dia, em que a cruz da família tinha de passar às tuas mãos...
“Mas eu nunca me enganei... eu tive pressentimentos de que uma grande desgraça estava prestes a cair sobre ti... sobre nós... Essa desgraça foi preparada por teu próprio pai.
“Sentindo aproximar-se o dia do teu nono aniversário, Hugo declarou-nos que queria mandar ornar a cruz da família com preciosos brilhantes; teu avô e teu tio, Honorina, aplaudiram essa idéia, porque pensavam assim demonstrar o muito apreço em que tinham a sagrada cruz, e porque também isso satisfazia a ternura com que todos te amavam.
“Fui eu a única que me opus; eu sempre entendi que cumpria conservar pura e intacta a nobre herança havida dos nossos avós, a nobre herança de Isabel deixada por Gil Mendonça. Mas que podia eu triste mulher contra todos os parentes?... Foi com lágrimas nos olhos que eu vi levarem a cruz da família...
“Chegou o dia do teu nono aniversário.
“Jantamos todos reunidos. Duas únicas pessoas que não tinham o nome de Mendonça jantaram conosco: Lúcia, que dera de mamar a teu primo Lauro e a ti, e Félix, que é hoje o guarda-livros de teu pai; pobre e desvalido moço a quem por compaixão recebemos para nossa casa, e que nos tem sabido pagar com admirável gratidão.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.