Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Porque olhe vossemecê – acudiu alegremente a irmã do brasileiro – eu tenho muito medo que meu irmão se apaixone por alguma destas senhoritas cá de Barrosas que andam a armar-lhe a rediosca com presentinhos de queques e ramos de flores. O doutor das Lamelas já cá trouxe três filhas de visita; umas espinifradas com uns grandes pentes, a darem-me senhoria a mim, e por detrás a escarnecerem de meu irmão. Pois quer vossemecê saber? O doutor teve o descoco de dizer ao meu Hermenegildo que as suas filhas eram todas tôdas muito amigas dele, e que qualquer delas se daria por feliz ficando nesta casa! Salvo seja! Eu as arrenego! Longe vá o agouro! Meu irmão, que é finório ali onde o vê, respondeu que estava já velhote para casar, e que era muito doente do interior. O homem não tornou cá, nem as pelintronas das filhas, que hão de pôr a cara onde a Sr.ª D. Ângela põe os pés para serem fidalgas. E, como lhe eu ia contando, meu irmão é muito doente do fígado, e diz ele que não há de viver muito. Oxalá que se engane; mas a mim bacoreja-me que aquela moléstia de dentro não se cura. Se ele morrer, eu já sei que a mim me deixará alguma coisa para a minha decência; mas a riqueza quase toda vai para o Atanásio do Porto, que foi sócio dele, e são muito amigos. Ora diga-me vossemecê: Não era melhor que esta riqueza ficasse à Sr.ª D. Ângelazinha? Fazia-lhe mal ficar com este palácio, com esta quina, e com o dinheirão que o meu Hermenegildo tem nos bancos, que pelos modos me disse o tal Atanásio que era metade dum milhão! Metade dum milhão, ó Sr.ª Vitorina! Vossemecê já viu riqueza assim?
― Com efeito! – disse a interlocutora com sincero assombro. – Metade dum milhão! A fidalga, ainda que ficasse herdeira do pai, não tinha tanto, acho eu!
― Nem sombras disso! Meio milhão acho que neste mundo só o tem as pessoas reais. Quer vossemecê saber outra? Já desde que meu mano chegou, duas vezes os governos do Porto lhe escreveram para ele ser barão. Vossemecê bem sabe que barão é isto de ser grande e maioral do reino, e fica-se logo fidalgo. Pois saberá que o meu irmão não quis até agora, porque lhe pediam cinco contos pela fidalgaria, e ele ofereceu metade. Estamos a ver se se arranjará o negócio; mas, ponto é querer a fidalga que ele seja barão, que isso manda ele logo aos governos do Porto pagar os cinco contos. Conte-lhe vossemecê tudo isto lá como coisa sua. E olhe que, se o casamento se chega a fazer, vossemecê também há de apanhar uma boa pechincha. Eu cá de mm dou-lhe um cordão de vinte moedas, e meu irmão é capaz de lhe comprar uma casa p’rá sua velhice.
― Velha estou eu, Sr.ª Ritinha – atalhou Vitorina – e, se Deus quiser, hei de morrer na casa onde viver a minha ama.
― Pois isto é um modo de falar; que vossemecê há de ficar sempre conosco enquanto for viva.
Pouco depois, Ângela escutava a exposição de Rita fielmente reproduzida pela criada, tirante as ridiculezas que a sagaz Vitorina omitiu como desconvenientes à gravidade do assunto.
Não obstante a compostura da velha, Ângela sorria-se e duas vezes abafou os froixos da gargalhada. Finda a relação, a filha de D. Maria d’Antas reconcentrou-se, apanhou as fontes nas mimosas mãos e murmurou:
― Qual virá a ser o meu destino?...
Esta pergunta era o epílogo de mil confusas idéias que se lhe embaralhavam na alma, umas sublimes, outras baixas até ao vilíssimo lodo que originariamente foi costela de homem. Com a qual costela bem podem dar-nos na cara as malfadadas a quem frechamos de sátiras, quando uns fumos iriados do prestígio, que lhes doira a nossa poesia, se rarefazem.
― Qual virá a ser o meu destino?
Que interrogação!
É a mulher sem parentes que a faz.
É a mulher que conheceu a pobreza.
E o desamparo.
E o desprezo dos seus.
E as injúrias caluniosas, sem que Deus ou a sociedade a vingassem e a ilibassem.
É a mulher que não vê aurora de melhor dia;
Que um mês antes quase esmolara o custo da passagem dum albergue de caridade para outro; Que se despenhara das canduras dum primeiro amor à mais rasa, à mais estranha e imprevista miséria. ― Qual virá a ser o meu destino?
Há neste interrogar-se uma abdicação, um alienar direitos de dispor do que quer que seja aspirações a felicidade.
Porque é tudo escuridade e amargura em sua alma. Amargura, se se recorda; escuridade, se olha adiante.
A riqueza, que se lhe oferece, não é a que ela desejava. O meio milhão deste homem não servirá a resgatar da pobreza a família do homem assassinado por sua tia. Mas Vitorina...
(Ó costela do homem! Ó oiro que a baba da serpente converteu em lama!...)
Mas Vitorina repisara naquelas palavras de Rita: ora diga-me vossemecê: Não era melhor que esta riqueza ficasse à Sr.ª D. Ângelazinha?
E Ângela de Noronha, interrogando o silêncio da sua alma, pôs os olhos lagrimosos em Vitorina e disse:
― Se tu pedisses a Deus que me levasse deste mundo!...
― Por que, minha senhora? Por que quer morrer?
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.