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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Foi um alívio quando penetrou pelo flanco da montanha de Santa Teresa, guinchando estrepitosamente, vencendo a rampa que o levava morro acima. A cidade se foi vendo melhor. Lá estavam as ruas centrais, cobertas de mercancia; mais além a Cidade Nova; acolá a pedreira de São Diogo, chanfrada, esfolada e roída pela teimosa humanidade; a estrada de ferro, o Mangue...

As torres das igrejas subiam aos céus com os seus votos e desejos. Do zimbório da Candelária, muito calmo na sua curva suave, o lanternim olhava tudo aquilo com superioridade e curiosidade e curiosa indiferença.

O mar parecia coagulado ou feito de um líquido pesado e espelhante; os navios estavam como incrustados nele e as ilhas pareciam borrões naquele espelho fosco.

A vista caía sobre um veículo, um carro, por exemplo, e, dali, poucos metros acima do solo, não se podia perceber se era um “coupé” de luxo ou um carro da Misericórdia, se era uma traquitana de praça ou o “landau” do presidente.

Não se separavam bem as pessoas e as coisas: o que se via era aquele ajuntamento, aquela aglomeração, que lá do alto parecia ser uma existência, uma vida, feita de muitas vidas e muitas existências. Não era o palacete ou o cortiço, não era o patrão ou o criado, não era o teatro ou o cemitério, não era o capitalista ou o mendigo; era a cidade, a grande cidade, a soma de trabalho, de riqueza, de miséria, de dores, de crimes de quase quatro séculos contados.

O bonde chegou ao largo do Guimarães, e D. Edgarda se viu novamente mergulhada numa atmosfera urbana. Uma praça cercada de casas, “rails” a cruzarem-se, bodegas, armarinhos, um cenário de praça de cidade pequena. O veículo continuou e agora lhe veio pensar para onde marchava aquilo tudo, para que fim, para que destino, se encaminhava o resultado de tanto trabalho e de tanta inteligência empregados na criação, na edificação daquela imensa colméia humana. Pensava, mas não viu nenhum; não quis, porém, o seu espírito acreditar que tudo o que aquilo representava de inteligência, todo o amor acumulado ali, todo o sofrimento que porejava daquelas paredes e se evolava daqueles telhados, não se destinassem a um remate, a um destino superior qualquer.

Contudo, no instante, a sua meditação se resumiu em sentir a inanidade das nossas criações e teve a imensa visão do inútil dos nossos esforços para o bem e para o mal.

O bonde galgava a montanha relinchando longamente, traindo o esforço que fazia, e aproximava-se da residência do Dr. Macieira Galvão, governador eleito do Estado das Palmeiras. Dentro de dias, ele e a família embarcariam para lá e D. Edgarda vinha fazer a visita de despedidas, na expectativa de não poder ir ao embarque.

Macieira tinha nas Palmeiras a posição que seu pai em tinha Sepotuba e admirava-se que a sua família consentisse naquela partida, em vésperas de grandes acontecimentos políticos. Bentes já declarara pelos jornais que era candidato, deixando até o ministério. Xisto, o outro ministro que era candidato oficial, resignara a candidatura; e, pelo que diziam, tratava de aderir a Bentes, como estava fazendo toda a gente, oposicionistas e governistas. Não julgava de bom alvitre Macieira abandonar o Centro e deixar que Bentes fosse cercado pelos seus adversários. Não lhe diria nada. Que tinha com isso? Seu pai já devia ter tomado as precauções necessárias e era o bastante. Quanto ao marido, ela estava sossegada, pois o seu pai saberia escorá-lo. O terremoto não chegaria a abalá-lo; e ele, até ali tão assustado, vivia tranqüilo e sem medo algum. Ainda agora, pouco antes de sair, tivera ocasião de verificar. Vestia-se quando ouviu que a chamavam:

— Edgarda! Edgarda!

Compôs-se um pouco, escondeu entre as rendas da camisa as suas firmes espáduas, e foi ver o marido no aposento aproximo.

— Como é que se diz, Edgarda. É talwég ou tálweg?

Disse-lhe, e Numa continuou tranqüilamente a estudar o discurso que devia pronunciar brevemente. A mulher ainda se demorou um pouco a ouvi-lo, a apreciar o seu minucioso estudo da peça, que ele recitava, quase de cor, com a sua voz, às vezes áspera, mas volumosa, articulando nitidamente as palavras.

O bonde avizinhou-se mais: Edgarda saltou e desceu em pouco uma rua transversal que escorregava suavemente pelas abas do morro. Metros após descansava a sua longa mão enluvada no botão da campainha que brilhava, no portão de um amplo “chalet” risonho.



(continua...)

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