Por Aluísio Azevedo (1895)
E assim palavrearam durante uma boa hora, sem que o rapaz conseguisse precisar o seu juízo sobre aquela mulher, da qual nem mesmo a idade podia determinar.
Um homem mais velho que Teobaldo notaria entretanto que Ernestina era bem servida de formas, que tinha bons dentes, cabelos magníficos e um par de olhos bem guarnecidos e banhados de uma certa umidade voluptuosa.
Mas o filho do barão estava na idade em que os homens ainda não sabem apreciar as mulheres e aceitam-nas indeterminadamente, como simples recreio dos seus sentidos. Orçava ele então pelos dezoito anos e, mais formoso do que nunca, desenvolviam-se-lhe as feições, sem detrimento da primitiva frescura. Tinha ainda alguma coisa da graciosa candura da criança e já, nos traços enérgicos de sua fisionomia e nos movimentos donairosos de seu corpo, pressentiam-se as manifestações de uma forte e precoce virilidade. Tez aveludada e pura, sorriso crespo e frio, olhar indiferente e terno a um tempo, dir-se-ia que ele, naquele todo de jovem príncipe aborrecido, realizava com a sua graciosa e pálida figura o tipo ideal do romantismo da época.
Entrando em casa uma ocasião às duas horas da tarde, disse-lhe o Coruja que D. Ernestina o mandara procurar havia pouco e que lhe pedia o obséquio de ir ter com ela, logo que chegasse.
- Para que, sabes? perguntou.
- Creio, respondeu André, que ela recebeu hoje a notícia da morte de algum parente...
Uma tia, se me não engano.
- Sim? E que diabo tenho eu com isso?
Mas, por curiosidade, Teobaldo sempre desceu ao primeiro andar. E, ao barulho de seus passos, ouviu gritar logo de um quarto.
- É o senhor, Sr. Teobaldo?
- Sou eu, sim, minha senhora.
- Venha até cá; entre. Tenha paciência!
Ele, que não conhecia ainda os quartos do primeiro andar, seguiu a direção da voz e achou-se pouco depois em uma alcova, meio atravancada de trastes, onde teve de andar às apalpadelas, tão completa lhe parecia a principio a escuridão.
Entrou a tropeçar nos móveis e, de braços estendidos, tateou casualmente alguma coisa que pela macieza, seriam talvez as faces de D. Ernestina.
- Fique! pode ficar! disse ela a um movimento de retração que fez o estudante; o senhor não é de cerimonia, fique!
Teobaldo, que acabava de esbarrar com as pernas em uma cadeira, assentou-se e, habituando-se pouco a pouco à escuridão, foi gradualmente distinguindo o que o cercava. Só então reparou que D. Ernestina conservava uma das mãos dele entre as suas, e que ela estava estendida em uma cama larga, de casados, onde apenas a cabeça e os braços se lhe viam por entre coberta e lençóis.
- Está doente? perguntou ele.
- Muito, Sr. Teobaldo, muito!
- Que foi isso?
- Ora! Imagine que recebi hoje pela manhã a notícia da morte da única parenta que me restava no mundo.
- Sua tia, disse-me o Coruja.
- Minha tia, não; não era só minha tia, era o meu tudo!
E a um rebote de soluços:
- Oh como aquela nunca mais encontrarei outra! Nunca encontrarei!
Dizendo isto, D. Ernestina ergueu os braços para o teto e, deixando-os cair em volta do pescoço do rapaz, encostou a cabeça no peito deste e assim ficou a chorar por longo tempo.
- Bem... resmungou ele um tanto constrangido. Mas a senhora não lucra nada em se afligir desse modo! Faça por conformar-se com o que sucedeu... Não há de ser à força de lágrimas que sua tia voltará à vida! Console-se! - Oh! mas é que eu não posso! mas é que eu não posso!
E, a cada exclamação, mais se estreitava contra o moço, a ponto de lhe fazer sentir nas faces, nas orelhas e afinal nos lábios o resfolegar ardente dos seus soluços.
- Não posso! não posso conformar-me com semelhante desgraça!
- Mas faça por isso.. . retrucou ele, quase que a soprar-lhe as palavras pela boca. Faça por ter um pouco de resignação ...
- Obrigada, muito obrigada!... suspirou a chorosa procurando conter o pranto.
E, como em agradecimento àquelas boas palavras de condolência, levou aos lábios as duas mãos do rapaz e cobriu-as de beijos que a outro qualquer surpreenderiam, não a ele, desde o berço amimado a cada instante.
Em Teobaldo era já um hábito muito antigo receber carinhos daquela espécie. Quase nunca os retribuía; aceitava-os friamente, sem comoção, como um proveito e glorioso artista recebe os elogios de um homem que lhe fala pela primeira vez.
III
Depois desta cena Ernestina passava a maior parte dos seus dias no segundo andar. Mas não gostava de lá ir enquanto o Coruja não tivesse saído para a rua.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.