Por Aluísio Azevedo (1891)
Mas seu desejo era poder naquele momento apertar nos braços alguém, cujo nome seus lábios não se atreviam a balbuciar, receosos de magoarem a candidez da sua alma virginal, branca noiva de Deus! O seu desejo era poder dizer o que lhe ensinara a Bíblia, era poder cantar a capitosa música do Cântico dos Cânticos, que nunca alma nenhuma jamais no mundo sonhou e repetiu sozinha. O seu desejo era poder dizer: "Eu te amo!" e sentir a miragem desta doce palavra refletida inteira nuns lábios de mulher, que lhe não falavam, porque já não tinham voz senão para soluçar de amor.
O seu desejo era Alzira!
Era Alzira de carnes brancas e olhos negros! O seu desejo eram longos cabelos nus, soltos no vendaval de todos os desejos. O seu desejo eram lábios trementes e vermelhos, eram doces braços de veludo, eram a funda morte do supremo gozo, bebido de barco sabre um níveo colo de Eva paradisíaco!
O seu desejo era o pecado.
E Ângelo chorava.
Mas, de repente, como se o espetro do dever lhe tocara no ombro, ele ergueu-se estremunhado e trocou um olhar, ansioso e suplicante, com o triste e quieto olhar da Virgem.
Correu para junto dela e ajoelhou-se a seus pés, mesquinho de remorso e trêmulo de arrependimento.
— Valei-me! disse, erguendo para a imagem os olhos lacrimosos. Valei-me a mim, a mais desgraçada de todas as vossas criaturas!
E soluçava.
— Maria! Maria puríssima! exclamou ele depois, como um desprezado amante aos pés da sua cruel amada. Vede! Atendei, flor dos céus! Vede bem que sou eu quem aqui vos fala e quem vos chama neste momento!
E arrastando-se de joelhos, com os lábios estendidos para alcançar-lhe a fímbria do vestido:— Mãe casta! mãe sempre virgem, valei-me! Vós sois o meu último recurso, a minha última salvação! Escondei dentro da urna de marfim da vossa misericórdia a pureza da minha pobre alma, que a besta imunda a cerca, farejando! Salvai-me, virgem mãe sem mácula; abrigai-me numa das dobras do vosso manto azul, constelado de estrelas! Defendei-me contra mim próprio e contra o meu sangue traiçoeiro! Vós, que sois o eterno prodígio da castidade, protegei a minha castidade contra os meus íntimos inimigos! Não me deixeis cair em pensamentos depravados! Exorcizai de dentro do meu corpo o demônio que me morde as carnes e cospe fogo no meu sangue! Enxotai a luxúria, que baba minha alma para sorvê-la depois!
Salvai-me! Salvai-me, rainha de bondade! Se quereis abandonar-me assim, à mercê dos meus sentidos, por que pois me aninhastes carinhosa, durante tanto tempo, sob as asas brancas da vossa divina graça?... Se a vossa intenção era atirar-me assim às garras do pecado, por que pois, me ensinastes a amar-vos tão castamente desde a minha infância mais inocente?... Dormi tão confiante em vossa guarda, respirando as rosas místicas do vosso divino amor, e de repente acordo, sobressaltado, entre uivos de fera que me cerca, para devorar-me!
"Onde estais vós, mãe puríssima, onde, que desde aqueles malditos olhos tão formosos e tentadores, já me não ouvis as súplicas e já me não enxugais, com o vosso alvo sudário cor de neve, as lágrimas deste desespero?
''Ó peito de amor! entranhas de piedade! como é que assim vos fechais para quem vos ama?... Oh! volvei para mim os vossos lindos olhos misericordiosos! Voltai a ter comigo, a sós, na minha cela, como dantes, quando eu era um dos anjos rubicundos do vosso trono de nuvens!... Tornai a ter comigo, Maria, cheia de graça!
"Se tínheis de abandonar-me e perder-me num segundo, para que então vos dei toda a minha existência de vinte anos, mais brancos do que a torre de David?... Se assim tinha de ser, amada minha, não valia a pena então conservar-me tão puro e tão cândido!...
"Maria! Virgem amorosíssima! vida e doçura' esperança nossa! se não quereis vir em meu socorro, matai-me! eu aqui estou a vossos pés, e não me levanta rei dos meus joelhos senão por um ar da vossa divina graça! ... "
E Ângelo, de olhos fitos na Virgem, esperava um milagre, esperava alguma cousa que lhe restituísse a sua antiga tranqüilidade de espírito.
Nada! A imagem parecia surda ao seu desespero de salvação.
"Oh! por piedade! por piedade, minha mãe querida! envia-me do vosso peito de amor a inspiração do meu resgate!" Nada! Nada!
Ângelo deixou cair o rosto para a terra; abandonou os braços, com as mãos entre os joelhos, e quedou-se pensativo.
Infeliz! infeliz!
Não era a primeira mãe que o enjeitada! ...
E as lágrimas de abandonado correram-lhe tristes pelo mármore das faces, e o mísero deixou-se levar de rastos pelas garras da sua dor imensa, para o inferno da sua desesperança sem consolo.
Foi despertado pela velha criada, que, depois de bater várias vezes, resolveu-se a entrar no quarto.
— Perdão, senhor vigário. Queira desculpar interromper as suas orações, mas...
— Fale, minha irmã...
— É que está aí uma dama toda vestida de negro e coberta por um longo véu, que deseja falar a vossa mercê...
— Uma mulher?... E não disse quem era?...
— Não quis dizer, senhor vigário.
— Bem, minha filha, faça-a entrar para a capela e diga a frei Ozéas que tenha a bondade de vir cá.
A criada saiu e o egresso apareceu pouco depois.
— Há, aí, disse-lhe o presbítero, uma mulher que me procura. Devo escutá-la, meu pai?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.