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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Tu tens que mudar de vida! disse­lhe o pai. Seguiremos quanto antes para o Rio de Janeiro; preciso de ti ao meu lado. Estou só. Ana mora lá com o marido; esta também cá está com o seu, e não tenciona repatriar­se tão cedo... por conseguinte, só me resta a tua companhia, eu não a posso dispensar. Sinto­me velho e desamparado. Meus negócios vão ultimamente de mal a pior; minhas especulações falharam todas; fiquei reduzido ao simples soldo! Não tenho uma comissão, nem esperança de obter cousa alguma; não há quem se empenhe por mim... E, além de tudo isso, meu filho, sofro uma guerra implacável, uma guerra cruel, e sem saber de quem!

— Como assim?...

Refiro­me a certas mofinas, que de bons tempos a esta parte se publicam invariavelmente duas vezes por mês no Jornal do Comércio. É uma infâmia! dizem o diabo de mim! Chegaram já a chamar­me de ladrão!

— Mas quem será o autor dessa perfídia!... perguntou Gaspar, indignado.

— Sei cá quem é! respondeu o pai, sacudindo os ombros. Não me dói na consciência haver feito mal a ninguém; não tenho em minha vida glórias tais que possam despertar inveja; nunca pratiquei baixezas, nem cometi crimes que pudessem levantar a indignação ou o ódio de quem quer que seja... Digo­te com franqueza que não sei absolutamente a quem possa atribuir semelhante cousa! Mas o que te afianço é que o tal autor das mofinas não se descuida... Tudo deixará de aparecer, menos uma injúria contra mim no dia quinze e no dia trinta de cada mês. Já tenho, por todos os modos, procurado ver se descubro a quem devo tão estranha perseguição, mas qual! o miserável esconde­se deveras.

— Ora, havemos de ver se o descobriremos ou não. E juro­lhe, meu pai, que, se o não descobrirmos, quem mais há de pagar é o redator do jornal!

— Bem! bem! mas não é disso que se trata agora! observou o coronel. O que desejo saber é se podes seguir para o Rio no primeiro vapor...

— Posso, mas não para ficar de vez, porque tenho ainda o que fazer em Montevidéu; tenho que proceder ao inventário dos bens de Violante em beneficio de meu enteado. Só depois de tudo muito bem disposto, é que poderei voltar para o Rio de Janeiro e fazer­lhe companhia. Porém, de tudo, o que me parece mais razoável é que o senhor venha comigo dar um passeio à República Oriental...

— Não! Estou cansado e quero morrer onde nasci; além de que, ficando na Corte, verei sempre a minha querida Ana, o que me fará bem. Em todo caso, meu filho, se os teus interesses te aconselharem que abandones o Brasil, não serei eu que a isso me oponha, posto que precise como nunca de ti ao meu lado. Não quero prejudicar­te.

— De forma alguma, meu pai; terminado o que tenho a fazer em Montevidéu, mudo­me definitivamente para o Rio, e aí viveremos juntos. Tenciono dedicar­me exclusivamente à minha profissão de médico.

Partiram no primeiro vapor, e Gaspar seguiu para Montevidéu. Tratou este logo do inventário, ficando Gabriel patrimoniado com trezentos mil pesos ouro.

O padrasto pensou em retirar­se com ele para o Brasil.

O filho de Violante orçava então pelos oito anos; era um menino sadio, forte e bem tratado. Gaspar é que não parecia o mesmo. Nada o distraía, nada conseguia espantar o bando de aves negras do seu tédio. Passava uma vida concentrada e aborrecida; tudo lhe trazia à idéia a sua pobre Violante, deixando­lhe o coração embebido em uma saudade imensa e desesperadora. Tinha ele seus então vinte e sete anos e parecia ter muito mais; estava magro, com grandes olheiras. Entre todos os rostos formosos das mulheres de Montevidéu, nem um só havia que lhe chamasse um pouco de luz aos olhos, ou um pouco de riso aos lábios. Seu único prazer, sua consolação única, era ter Gabriel nos braços.

A bela criança, apesar de loura, lembrava muita cousa da mãe. Os olhos rasgados e pestanudos da oriental ali estavam com o filho como preciosas jóias herdadas da família.

Gaspar ficava horas esquecidas a fitá­los, nem que se procurasse descobrir neles a alma da sua amante. Só aquela criança tinha o mágico poder de interessá­lo e distraí­lo. Dedicava ao pequeno a maior parte de seu tempo, e por tal forma foi tomando por ele uma amizade tão profunda e exclusiva, que acabou por fazer de Gabriel todo o cuidado e toda a preocupação da sua vida.

Passaram­se dois anos. Durante esse tempo, Gaspar havia dado, com o maior amor e a mais paternal paciência, as primeiras lições ao querido órfão. Seus negócios estavam concluídos; partiu com ele para o Rio de Janeiro.

O coronel, como todos os que tinham dantes conhecido Gaspar, espantou­se com o aspecto deste; vinha o desgraçado relativamente velho. Nos últimos tempos entregava­se com exagero ao estudo da medicina e andava a farejar doentes pobres, que curava de graça.

Foi morar com o pai, na velha propriedade que o coronel possuía em uma das mais escusas travessas do Catete, e lá vivia ao lado de Gabriel. Começaram então a distingui­lo pela alcunha de "Médico Misterioso."

Ele próprio se tinha encarregado ainda da instrução primária do enteado, e dedicava a esse trabalho grande parte do seu lazer. Gabriel o estremecia loucamente.

(continua...)

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