Por Visconde de Taunay (1872)
—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer distanciar-se, em boas me fui eu meter! . . . Se não fosse a tal carta do mano, o cujo dançava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias esta para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hem?... Sempre é gente de outras terras... Cruz! Também vi logo... um latagão bonito. .. todo faceiro... havéra por força de ser rufião.
Ouvia-o Cirino em silêncio.
—E mulher, prosseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros desta súcia de embromadores. Com elas, digo eu sempre, não há que fiar... Má hora me trouxe este alamão... Mil raios o rachem!... E logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcatéia... meter-me em tocaia e fazer fojos para que o bracaiá não me entre no galinheiro. Ora que tal!
—Também, breve se vai ele embora, lembrou Cirino a modo de consolo.
—Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo enfernizado com o tal homem...
Neste momento, como que de propósito, voltava-se Meyer para os dois:
—Senhor Pereira, disse ele, ficarei em sua casa talvez umas duas semanas. Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei de fazer compridas viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nela encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpelado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo instinto e dever de hospitalidade, de pronto respondeu, embora secamente:
—Fique duas semanas, ou dois meses ou dois anos. Já lho disse: a casa é sua, e palavra de mineiro não volta atrás. Quem esta aqui, não é o senhor, é meu irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cirino, acrescentou em voz surda e angustiada:
—Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer se engraçar comigo, não é? Mas cá fico... e, uma vez avisado, nem dois, nem três me botam poeira nos olhos... Não é com essa! Nocência nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santíssima, tem ainda pai com braço forte e muito sangue nas veias para defendê-la dos garimpeiros e cruzadores de estrada... Ele que não brinque com o Manecão; é homem de cabelinho na venta e se lhe bota a mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fora veadinho do campo enroscado por sucuri...
Ia, contudo, Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas inconsideradas palavras e, sem dúvida, estimulada em suas reminiscências pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava entredentes uma velha valsa alemã, dançada talvez com alguma loura patrícia em épocas remotas e de menos rigorismo científico.
CAPÍTULO XIII
DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos iludidos pela confiança: mas a desconfiança faz que sejamos por nós mesmos enganados.
(Príncipe de Ligne)
Quando o nosso saxônio entrou na sala em que estavam as suas cargas, vinha tão contente do agasalho recebido, da firmeza do tempo, das futuras caçadas de borboletas, que despertou a atenção do seu camarada José.
Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida em punho, a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se havia incrustado na grossa e já insensível sola.
—Homem, disse ele com familiaridade, Mochu está hoje muito alegre... Viu passarinho verde ?
—Passarinho verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi passarinho nenhum... Vi uma moça muito bonita...
—Olé... melhor ainda... Conte-me isso... e quem é ela.
—E a filha cá do Senhor Pereira.
—Parabéns! parabéns! exclamou José com toda a indiscrição. Moça bonita é fruta rara por estas matarias e brenhas do inferno... Quanto a mim, ainda não botei o olho senão em velhas corcorócas e serpentões... Outra coisa é no Rio... Não se lembra Mochu, da procissão de São Jorge?... Aí é que sai à rua uma tafularia de deixar a gente tonta de uma vez, de queixo caído. Umas tão alvas!... Outras cor de café com leite... crioulas chibantes.
—Juque, repreendeu o alemão revestindo-se de ar severo, não tome confiança com gente que não é da sua classe...
—Mas eu não disse nada de mau, Mochu, desculpou-se o criado recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.
Quem estava em cima de um braseiro, era Pereira. Decididamente, aquele hóspede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama que vira Inocência e com ela conversara, que a achava do seu gosto... uma rapariga já noiva! Quantas incongruências, que perigos, ó Santos do Paraíso!
Tornava-se caso de muita prudência. Qualquer passo menos pensado acarretaria conseqüências irremediáveis,
Necessário e penetrar-se a força dos sentimentos que sobressaltavam o mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava e achar natural que seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacilações.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.