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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Não há precipitação. Uma carruagem poderá vir em menos de meia hora receber a senhora e D. Virgínia, e conduzi-las para o lugar do embarque. Ao amanhecer, estaremos longe, e dentro de trinta horas poderemos aportar no cantinho feliz, onde tenho meus pais que hão de receber-nos com o mais vivo contentamento, como se todos fôssemos seus filhos.

Tinham chegado a certo ponto, onde a estrada formava um ângulo. Havia aí uma grande árvore. A estrada estava deserta. As sombras da noite estendiam-se rapidamente. A paisagem parecia lançar nos espíritos vagas confianças, misturadas de pavores — contradição gerada pela luz que fugia e pelas sombras que adiantavam.

Diante dessa natureza, que era uma incitação muda, posto que irresistível, ao que as paixões oferecem veemente e embriagante, Ângelo parou tomado de delicioso sentir.

Pegando as mãos de Maurícia, pousou nela os olhos que despediam grandes brilhos azulados como as estrelas. Maurícia estava pálida e abalada. Nada disse. Recebeu, não sem prazer, na face o fulgor dessa inspeção, que o bacharel parecia querer levar-lhe no íntimo da alma.

— Por que não aceita os meus serviços? Que pretextos são estes? Enquanto eu me sinto capaz de levar a efeito impossíveis para tê-la comigo, a senhora levanta escusas frívolas. É manifesta a causa de tais escusas. Cuidei que lhe merecia um afeto, mas o que a senhora sente por mim é simples curiosidade. Quer ver talvez, até onde irá o delírio de uma alma que teve a desgraça de se deixar vencer pelo esplendor de sua beleza.

Maurícia demorou-se um momento a dar-lhe a resposta. Parecia ter a voz presa e a respiração opressa.

— Como é injusto! o disse enfim. Não são escusas frívolas que levanto, são justas razões que aconselham a sermos prudentes; Que idéia daríamos de nós, se fugíssemos assim? E por que havemos de fugir? O senhor já refletiu maduramente na grave situação em que ficaria Virgínia, se realizássemos semelhante loucura?

— Chama a isso de loucura? - inquiriu Ângelo, sentindo as mãos geladas e trêmulas.

— E que nome se deve dar a tão arriscado plano?

— Diz a verdade - tornou o bacharel. Que sou, eu, senão um louco? Sinto que a razão se me desvaira; mas é à senhora que devo tal desvairamento; devo-o aos seus olhares magnéticos, à majestade das suas graças, ao brilho do seu talento. A senhora escravizou-me, e agora quer cortar o vôo da paixão que é obra sua, e que de suas mãos recebeu o impulso, que me atira para o imprevisto! Seja cordata e justa. A senhora deve acompanhar-me nesta vertigem, que pôs em minha alma, e cuja responsabilidade lhe pertence em sua maior parte.

— Acompanhá-lo-ei oportunamente. Agora, não. É impossível. Não vejo nisto indício de desamor. Como eu seria feliz, se pudesse ser desamorosa! Não duvide do meu amor; duvide da oportunidade das circunstâncias; duvide da conveniência deste modo de resolver uma dificuldade que é um laço de ferro, que me prende por toda a vida àquele que a fatalidade pôs no meu caminho para apavorar os meus sorrisos, e afugentar a chuva de flores em que se banhava a minha mocidade. Não duvide de mim. Escute. As minhas circunstâncias são melindrosas. Quem sabe o que neste momento não se estará pensando a meu respeito ao notar-se a minha ausência? Faço um apelo ao seu critério. Entreguemos ao futuro os nossos destinos. Terá coragem o senhor para proceder de modo diferente. Não há de ter. Volte à sua casa. Teremos ocasião de nos entendermos sobre este assunto.

— Poderei levar pelo menos a certeza que lhe mereço o seu afeto? perguntou Ângelo, compreendendo tardiamente que urgia sair de tão arriscada situação.

Maurícia fitou-o com os seus grandes olhos deslumbrantes. O ardente colóquio com o bacharel tinha-lhe trazido um resultado não isento de perigos; as paixões que repousavam silenciosas no fundo da sua alma, ela as sentiu ergueremse vivazes como nos primeiros anos da mocidade.

— Pode - respondeu com voz tímida.

Ângelo apertou-a contra si e deu-lhe um longo beijo a que ela não opôs nenhuma resistência.

As paixões de Maurícia tinham de feito despertado.

CAPÍTULO XI

Separaram-se alguns passos antes da porteira. Ângelo para volver à povoação imersa no seu habitual silêncio, Maurícia para ocultar no fundo do aposento, tão cuidadosamente que ninguém o suspeitasse, a deleitosa revolução que lhe deixava na alma o beijo do bacharel.

— Meu Deus, que será de mim? — disse ela como quem sentia à roda de si, ameaçando perdê-la, todos os perigos que cercam os amores ilícitos. Como é violenta a sua paixão por mim! E como eu ao amo! Oh! que desgraça, que desgraça, meu Deus!

Maurícia mal podia dominar o esto das suas paixões, acesas de repente, quando elas as julgava cinzas.

(continua...)

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