Por Franklin Távora (1876)
— Sim, saiamos já daqui antes que tornem os malfeitores. Eles não tardam por aí, creio eu. Vamos já, minha mãe. Está
me parecendo que dali, daquele mato traiçoeiro, um homem nos acomete, ou um tiro nos vem ferir.
Cambaleante e trôpega, Florinda dera o andar arrimando se no ombro da filha.
— Que tens, Luizinha, que olhas horrorizada para aquela banda ? Fez te algum dano o assassino ?
— Não, nada me fez. Mas eu tenho medo destes lugares. Nunca mais virei buscar água aqui.
— Conta me tudo, Luisinha. Como te livraste do malfeitor? Quem era ele? Não o conheceste? Seria o Cabeleira ?
— Não sei, minha mãe. Estava já tão escuro quando ele apareceu… Sei porém, que ele se compadeceu de mim.
— Estás dizendo a verdade, Luisinha ?
— Sim, minha mãe, ele não me ofendeu. Dando mostras de estar arrependido, fugiu logo depois, e não voltou mais.
— Malvado ! ? disse Florinda. — Que pancada me deu ele! Põe a mão em minha fonte. Vê como fiquei. Virgem Santíssima ! Não sei como não me saltaram os miolos. Mas… ampara me bem, que uma nova perturbação me vem tirar os sentidos. Ampara me, senão caio. Não posso andar mais.
— Temos de feito andado muito, minha mãe, e deve estar cansada.
Luísa, novamente aflita, volvendo os olhos em torno de si, viu, a poucas braças, uma sombra imóvel que brilhou aos seus olhos como um astro de proteção e conforto.
Estavam salvas. Era a casa de Liberato.
CAPÍTULO VIII
A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em linha reta, de norte a sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras pertencentes à engenhoca. Era fraca de construção, mas podia considerar se uma verdadeira casa de campo por sua bonita aparência, pela vista que tinha para todos os lados, pelo alpendre circular e pelo meio peitoril de madeira que não contribuía pouco para a sua rústica elegância.
A pequena distancia tinham sido edificadas três casas menores e menos vistosas do que a primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas os filhos do crioulo. Nos fundos do cercado via se outra casinha que na forma arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, à sombra do irmão, aí vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.
Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuniários, com o auxílio de Gabriel, Sebastião, Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia roçados e vazantes, e, no tempo próprio, fabricava açúcar e rapaduras, desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para todo o ano.
Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irmão, aqueles filhos, aquele genro, cada um com sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais bonitos exemplos, que se conhecem, de união, auxílio mútuo, recíproco respeito e comum felicidade.
Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada à mata. Liberato, para maior segurança dos seus desígnios, havia recomendado aos companheiros o mais rigoroso segredo. E como tinham eles por costume caçar pacas e tatus uma vez por outra, quando fazia luar e o tempo estava enxuto, não houve quem duvidasse da palavra dos caçadores. Quando, porém, se soube do acontecido por boca de Luísa, e pelo vestígio da atrocidade que Florinda trazia na face, a qual bem estava dizendo donde havia procedido, a inquietação e o susto vieram tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes da engenhoca.
Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia noite até o amanhecer não haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.
O sol espargiu a luz suave sobre o sertão, e com ela despertou a natureza. Inspirando as aves, colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno das águas do Tapacurá o belo céu que nele se refletia com os seus esplêndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao deserto o movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu espesso véu.
Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confiança, só não em Luísa, que via próximo o termo da vida de sua mãe privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congestão.
Chegou a hora do almoço, a do jantar, e finalmente escureceu de novo sem que os caçadores houvesse volvido a seus lares. Então a consternação tornou se geral e verdadeiramente cruel.
As famílias reuniram se todas na casa grande para se protegerem em caso de perigo que logo tiveram por iminente.
Três dias se passaram nessa aflição que se não pode descrever mas que facilmente se imagina.
Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O capitão mor achava se no Recife, e o povoado, que um século antes constava de uma capela dedicada a Santo Antão, e de meia dúzia de casas, pouco mais era do que isto na época em que se passou esta história; precisava também de proteção.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.