Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

— Esse lenço, Álvaro, — atalhou um cavalheiro, — decerto ela o deixou cair de propósito, para que pudesses vê-la de perto e falar-lhe. É um apuro de romantismo, um delicado rasgo de coquetterie.

— Não creio; não há naquele ente nem sombra de coquetterie; tudo nela respira candura e singeleza. O certo é que custei a arrancar meus pés daquele lugar, onde uma força magnética me retinha, e que parecia rescender um misterioso eflúvio de amor, de pureza e de aventura...

Álvaro pára em sua narrativa, como que embevecido em tão suaves recordações.

— E ficaste nisso, Álvaro! — perguntava outro cavalheiro; — o teu romance está-nos interessando; vamos por diante, que estou aflito por ver a peripécia...

— A peripécia?.., oh! essa ainda não chegou, e nem eu mesmo sei qual será. Esgotei enfim os estratagemas possíveis para ter entrada no santuário daquela deusa; mas foi tudo baldado. O acaso enfim veio em meu socorro, e serviu-me melhor do que toda a minha habilidade e diligência. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo Antônio, pelas margens do Beberibe, passeio que se tornara para mim uma devoção, avistei um homem e uma mulher navegando a todo pano em um pequeno bote.

Instantes depois o bote achou-se encalhado em um banco de areia.

Apeei-me imediatamente, e tomando um escaler na praia, fui em socorro dos dois navegantes que em vão forcejavam por safar a pequena embarcação. Não podem fazer idéia da deliciosa surpresa que senti, ao reconhecer nas duas pessoas do bote a minha misteriosa da chácara e seu pai...

— Por essa já eu esperava; entretanto o lance não deixa de ser dramático; a história de seus amores com a tal fada misteriosa vai tomando visos de um poema fantástico.

— Entretanto, é a pura realidade. Como estavam molhados e enxovalhados, convidei-os a entrarem no meu carro. Aceitaram depois de muita relutância, e dirigimo-nos para a casa deles. É escusado contarvos o resto desde então, se bem que com algum acanhamento foi-me franqueado o umbral da gruta misteriosa.

— E pelo que vejo, — interrogou o doutor, — amas muito essa mulher?

— Se amo! adoro-a cada vez mais, e o que é mais, tenho razões para acreditar que ela... pelo menos não me olha com indiferença.

— Deus queira que não andes embaído por alguma Circe de bordel, por alguma dessas aventureiras, de que há tantas pelo mundo, e que, sabendo que és rico, arma laços ao teu dinheiro! Esse afastamento da sociedade, esse mistério, em que procuram tão cuidadosamente envolver a sua vida, não abonam muito em favor deles.

— Quem sabe se são criminosos que procuram subtrair-se às pesquisas da polícia? — observou um cavalheiro.

— Talvez moedeiros falsos, — acrescentou outro.

— Tenho má-fé, — continuou o doutor — todas as vezes que vejo uma mulher bonita viajando em países estranhos em companhia de um homem, que de ordinário se diz pai ou irmão dela. O pai de tua fada, Álvaro, se é que é pai, é talvez algum cigano, ou cavalheiro de indústria, que especula com a formosura de sua filha.

— Santo Deus!... misericórdia! - exclamou Álvaro. — Se eu adivinhasse que veria a pessoa daquela criatura angélica apreciada com tanta atrocidade, ou antes tão impiamente profanada, quereria antes ser atacado de mudez, do que trazê-la à conversação. Creiam, que são demasiado injustos para com aquela pobre moça, meus amigos. Eu a julgaria antes uma princesa destronizada, se não soubesse que é um anjo do céu. Mas vocês em breve vão vê-la, e eu e ela estaremos vingados; pois estou certo que todos a uma voz a proclamarão uma divindade. Mas o pior é que desde já posso contar com um rival em cada um de vocês.

— Por minha parte, disse um dos cavalheiros, — pode ficar tranqüilo, pois sempre tive horror às moças misteriosas.

— E eu, que não sou mais do que um simples mortal, tenho muito medo de fadas, — acrescentou o outro.

— E como é, perguntou o Dr. Geraldo, — que vivendo ela assim arredada da sociedade, pôde resolver-se a deixar a sua misteriosa solidão, para vir a este baile tão público e concorrido?...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →