Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A 12 de outubro de 1822, o príncipe regente foi aclamado imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil na capital do novo império; mas a essa grande e brilhante solenidade quase que ficou estranho o palácio imperial.
A aclamação teve lugar no campo que então se chamava de Santana, e que estava coberto de povo e tropa. O imperador mostrava-se radiante, na varanda do palacete que havia nesse campo. A chuva caía com violência, mas apesar dela veio o imperador a pé e embaixo de pálio, seguido por toda a corte vestida de gala e pela multidão entusiasmada, para a capela imperial, onde foi entoado o Te-Deum em ação de graças pela regeneração política do Brasil e aclamação do seu imperador.
Com água às vezes pelos joelhos, esse préstito magnífico seguiu pela rua dos Ciganos, praça da Constituição, rua hoje do Teatro, largo de S. Francisco de Paula, rua do Ouvidor e rua Direita até à capela. Com a chuva do céu, caíam ao mesmo tempo enchentes de flores sobre o pálio, e as aclamações estrepitosas não deixavam ouvir o ruído da tormenta.
Entre os entusiastas, que eram todos, tornou-se notável uma turma de mancebos, alguns dos quais ainda vivem hoje. O imperador os vira à porta do palacete, sorrira-se encontrando-os à entrada da rua dos Ciganos, saudara-os, vendo-os cada vez mais entusiasmados, junto ao teatro de São João, que logo depois se chamou de S. Pedro, e enfim, esbarrando de novo com eles à porta da capela, parou um instante e disse-lhes:
“Os senhores tiveram hoje o dom da ubiqüidade. Foi milagre do patriotismo.”
No dia 1º de dezembro de 1822, efetuou-se o ato solene da sagração do primeiro imperador do Brasil; e então ficaram gravadas no palácio imperial lembranças faustosas desse notável acontecimento. Foi no palácio publicada a lista dos primeiros agraciados com a ordem imperial do Cruzeiro do Sul, primeira ordem americana, instituída nesse dia, e com a qual o imperador agraciou muitos dos mais notáveis propugnadores da independência. Antônio Carlos, Cipriano Barata, o Sr. Montezuma, hoje Visconde de Jequitinhonha, e alguns outros mereceram essa bela distinção, não ficando também esquecido o benemérito Capitão-mor José Joaquim da Rocha, cujos serviços à causa da independência foram tão relevantes, como grande a sua modéstia. O Sr. D. Pedro I, ao entrar no saguão do palácio imperial na manhã daquele dia, viu, entre os cidadãos que em número extraordinário se achavam ali, um filho do Capitão-mor José Joaquim da Rocha, e parando diante dele, perguntou-lhe alegremente:
– Seu pai já chegou ao paço?
– Já aí está, senhor – respondeu o mancebo.
– Pois se o encontrar primeiro do que eu, diga-lhe que foihoje agraciado com a dignitária da imperial ordem do Cruzeiro do Sul, como prêmio justo e devido a um dos patriarcas da independência da nossa pátria.
O povo respondeu com um viva estrepitoso às palavras do imperador, que assim honrava o cidadão patriota.
Do fim de 1833 a 1834, o palácio imperial foi durante algum tempo habitado por S. M. o Imperador, ainda menor e por suas augustas irmãs. A mudança de sua residência, da Quinta da Boavista para o palácio da cidade, traz-nos à memória dias tormentosos e uma página triste de nossa história.
Os excessos do partido restaurador, que perturbava a ordem e conspirava contra o governo, provocaram excessos ainda mais lamentáveis do partido dominante e do próprio governo. Às maquinações e violências dos restauradores respondeu o governo, deixando, em dezembro de 1833, as turbas mais ardentes e menos escrupulosas do seu partido atacarem impunemente a Sociedade Militar, que era a representante dos restauradores, quebrarem e destruírem toda a mobília e, em seguida, levarem igual destruição às tipografias, de cujos prelos saíam jornais infensos à política que então dirigia os negócios públicos.
Dias depois, espalhou-se que o partido restaurador premeditava romper em uma nova revolta, apoderando-se primeiramente dos augustos pupilos da nação. Fosse apenas um pretexto, ou tivesse realmente algum fundamento, certo é que essa notícia deu motivo a que o governo suspendesse o venerando José Bonifácio de Andrada do exercício da tutoria do imperador e das princesas e a que todos os juízes de paz da capital, escoltados de uma força de cem homens da polícia e de duas peças de artilharia, partissem para S. Cristóvão, varejassem o paço da Quinta, prendessem o tutor e, enfim, acompanhassem a família imperial, que foi trazida em triste triunfo para o palácio da cidade.
Passado algum tempo, arrefecido o fogo dos partidos, tornou
o imperador a ir habitar a Quinta da Boavista, e o palácio, em que por meses
residira, voltou àquela grande e melancólica solidão em cujo seio passou
durante quase toda a época da minoridade.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.