Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Vai alegre porque ama extremosamente a seus pais e arde em desejos de abraçal-os e de viver junto delles algumas semanas; vai alegre, porque deve encontrar-se com os seus amigos da.infancia, respirar doces auras na terra do seu berço, tornar a ver os campos, os bosques, os rios e as fontes que lhe lembrão mil gozos, mil travessuras, mil romancesinhos de criança.
Leva porém no coração saudades da escola e dos collegas, dos theatros e das festas, de algumas moças bonitas, a cada uma das quaes jurara um amor eterno, de uma corista da defunta companhia lyrica italiana com quem cantava duetos, e da confeitaria Carceller, onde todas as tardes costumava ir comer pasteis.
O receio que o acompanha, é mais serio ; desde dous annos seu pai procura convencel-o da conveniencia de um casamento que tem o grande defeito de ser muito prosaico ou poético demais, e Luciano teme com razão que novas instancias o continuem a obrigar a resistir á vontade daquelle a quem deve sempre obedecer.
Mas também é muito exigir !
Eugênio, que assim se chama o pai de Luciano, é intimo amigo de Guilherme, um rico negociante da corte, e possuidor de uma excellente fazenda que confina com a delle ; desde longos annos existe a mais perfeita intimidade entre ambos : tinhão-se casado no mesmo dia e aos pés do mesmo altar; suas esposas se tomarão tão amigas, como sabião selo os maridos, e por fim, tendo o céo dado um filho a Eugênio, e dous annos depois uma filha a Guilherme,os dous felizes pais, e as duas extremosas maiscompromettêrão-se mutuamente a casar Luciano com Dyonisia.
Esses pais amigos resolverão assim do futuro de seus filhos sem calcular com os caprichos de um coração de moça, com os ardores de um coração de mancebo, e com ura ou dous amores possiveis, que poderião fazer Luciano afastar-se de Dyonisia, ou ambos correrem em direccões oppostas.
Circumstancias imprevistas vierão tornar os dous pretendidos noivos quasi que absolutamente estranhos e desconhecidos.
Luciano só se poude lembrar de ter visto Dyonisia duas vezes : no primeira tinha elie cinco annos de idade, e a menina tres, e ficou furioso contra ella, porque fez-lhe em pedaços um lindo carrinho puxado por dous cavallos de chumho.
Na segunda vez, dous annos depois, o encontro não foi mais feliz ; a menina tinha-se tornado admiravelmente traquinas ; e além de perturbar todos os brinquedos do noivo, fazia-lhe caretas quando o percebia desapontado.
Então, aos. sete annos, Luciano á vista de seus pais, e dos pais de Dyonisia, disse a esta em. um momento de briga e de enfado :
— Deixe estar que eu nunca hei de casar-me com você!
E a menina desatou a rir e a saltar, exclamando:
— Que me importa! que me importa !...
Os dous noivos nunca mais se tornarão a Ver, e até esse tempo Guilherme apenas uma ou outra vez tinha podido vir passar alguns dias em sua fazenda, dahi por diante uma distancia enorme o separou do seu amigo. Negocios da maior importancia o levarão á Europa, onde se demorou quinze annos.
Apezar desta longa separação, nem esfriou a amizade de Eugênio e Guilherme e de suas consortes, nem foi esquecido o ajuste do casamento dos filhos. Os dous noivos mandavão, sem mesmo o saber, lembranças e saudades um ao outro nas cartas dos pais, que parecião namorar-se em nome dos filhos.
A menina tornou-se moça, recebeu em França uma educação esmerada, e talvez se tornou um pouco romanesca ; o que porém se passava em seu coração, e o que pensava do projecto de casamento que seus pais acariciavão tanto, é um segredo que eu não posso descortinar. Quando sua mãi lhe fallava de Luciano, ella corava, sorria e calava-se.
Quem não se calava, era Luciano. A principio e emquanto foi menino, repugnou-lhe a idéa desse casamento, recordando-se das travessuras e das caretas da noiva: depois, quando cresceu em annos e acabou de estudar philosophia, tomou ao serio os direitos do homem, não comprehendeu mais um casamento que não tivesse por base o amor, acreditou que o fatal projecto era um attentado contra a sua liberdade ; revoltou-se pois, e declarou muito respeitosamente a seus pais que não se casaria com a Sra. D. Dyonisia.
As insistências provocarão dobrada opposi-ção de sua parte, e finalmente Luciano acabou por aborrecer Dyonisia.
A pobre moça era para elle um phantasma pavoroso que o perseguia por toda a parte : irritava-se só ao ouvir pronunciar o nome de Dyonisia.
E entretanto, e a pezar seu, não podia cha-mala feia : recebera o retrato de Dyonisia, e duas ou tres vezes que olhara para elle, não poude deixar de reconhecer que a moça era encantadora, teve medo de convencer-se demasiadamente dessa verdade, e fez presente do retrato á sua mãi; nunca mais o quiz vêr, esqueceu a imagem e continuou a aborrecer o original.
Esta revolta não era do coração, era da imaginação, e
portanto mais violenta ainda, e tão violenta que levara Luciano a esquecer os
deveres da mais simples cortezia.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.