Por José de Alencar (1875)
— Esta certeza que você tem, mamãe Justa, é que eu não vejo. Só por que não se sabe donde veio o relicário?
— Pois não está se vendo, meu bem, que foi um anjo que o pôs ao pescocinho da criança, mandado por Nossa Senhora da Penha de França? Porque eu o tinha oferecido à Mãe Santíssima para seu devoto, quando ainda o trazia nas minhas entranhas, e então ela quis protegê-lo. Agora repare que, saindo Arnaldo um menino tão travêsso que ninguém podia com êle, nunca lhe aconteceu nada, mesmo nada; nem um arranhão de unha de gato, ou uma queda da goiabeira. Sumia-se um dia inteiro, metia-se no mato, ou andava cercando os magotes para montar nos poldros bravos, e estava mais seguro por lá, do que se eu o guardasse aquí junto de mim, no terreiro. Não se lembra daquela pobre, aí para as bandas de Russas, que enquanto ensaboava uma roupinha, os porcos lhe comeram o filho, mesmo dentro de casa?
— Coitada! Esqueceu-se de fechar a porta.
— Se tivesse proteção do céu pdia deixar aberta, ainda que lhe andassem as onças no terreiro. Era o mesmo que se um benzedor lhe fizesse o signo Salomão no batente: ninguém entrava.
— Agora por falar nas travessuras de meu colaço, mamãe Justa, lembrou-me de uma coisa que me sucedeu na viagem.
— Pois conte, meu querubim, que estou mesmo ansiosa de saber como lhe foi por lá pelo Recife, se achou muito bonita a cidade e teve festas e regozijo?
— Depois contarei tudo. Agora é só o que sucedeu na ida.
— Pois sim.
— Estávamos já perto do Recife e tínhamos atravessado um rio chamado das Tabocas, onde se deu uma grande batalha no tempo dos Flamengos.
— Sei; o velho Anselmo sempre falava nessa guerra que também êle andou por lá pelejando.
— Eu ia adiante equipando, quando um cavalo bravio, que andava pela várzea a pastar, ocorreu furioso para brigar com o lazão.
— Jesús! Que perigo!
— Foi apenas o susto. Quando o cavalo se atirou como uma onça para morder o lazão, um homem apareceu não sei donde que o agarrou pelas orelhas e saltou em cima.
— Bravo! Já estou-lhe querendo bem sem o conhecer.
— O cavalo corcoveava pela várzea, que parecia uma cabra; mas o sujeito meteu-lhe as esporas e lá se foram os dois aos trancos, pela várzea fora. Foi então que me lembrei de Arnaldo quando montava em pêlo nos poldros bravos, e andava a escaramuçar pelo campo até amansá-los.
— É verdade; era um capetinha. Mas o susto não fez mal à minha filha? perguntou a ama com terno desvêlo, como se falasse de um perigo recente.
— Não, nem disse nada à minha mãe para não afligí-la. O mais curioso, porém, é que o tal sujeito que me livrou dava uns ares com Arnaldo.
— Devéras?
— Eu não lhe vi a cara, porque êle tinha um lenço de rebuço, e também foi um relance, enquanto montava. Mas o corpo, nunca vi coisa mais semelhante. — Que me está dizendo, meu querubim?
D. Flor fez uma pausa de hesitação, ao cabo da qual fitou os olhos na ama:
— Quem sabe se não era mesmo meu colaço, mamãe Justa?
—Êle? Arnaldo? Que idéia! se andava tão longe, por êste sertão a dentro! Capaz de fazer o que o outro fez, isso sim; e mais, e muito mais, por meu querubim, que êle é meu filho e criou-se nestes peitos.
— Não podia ser êle! disse Flor com a voz lenta, e recaindo na cisma anterior.
Porventura seu espírito, recordando o fato e combinando-o com a notícia da ausência que Arnaldo fizera da fazenda, laborava em dúvida, a-pesar-da denegação que lhe escapara dos lábios.
Ouviu-se um manso balar e um piso rijo, mas compassado. Com pouco apareceu na porta que dava para a cozinha uma bonita cabra rajada, das maiores que se criavam naqueles pingues sertões.
Ao avistá-la, Justa estendeu a mão dizendo:
— Ande cá, comadre: venha dizer adeus à sua filha, que você ainda não viu.
A cabra como se entendesse a sertaneja, caminhou com passo lento e grave qual convinha a uma matrona e veio apoiar a cabeça na espádua a donzela que abraçou e acolheu com meiguices ao lindo animal.
— Adeus, mamãe bebé, como passou? Vamos a saber… Teve saudades de sua filha? Qual! Você é uma ingrata!
D. Flor que levantava com a mão esquerda a cabeça da cabra para falar-lhe, fez com o índice da mão direita um gesto risonho de ameaça infantil:
— Por que não me foi encontrar no terreiro com sua comadre, quando eu cheguei?
— Estava esperando por Arnaldo, observou a Justa. É um faro que ela tem para conhecer aquele filho, que é uma coisa por maior. Desde transanteontem à tarde, quando minha filha chegou, que ela começou a chamar, a chamar, e não saíu mais lá do cocoruto à espera dele.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.