Por José de Alencar (1857)
Depois que de fora lhe asseguraram que o tigre estava bem morto, entreabriu-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arrepiada olhou estremecendo o corpo da fera.
— Deixe-o ai mesmo. O Sr. D. Antônio há de vê-lo com seus olhos!
Era o corpo de delito, sobre o qual pretendia basear o libelo acusatório que ia fulminar contra Peri.
Por diferentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o índio que ela não podia sofrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito.
Mas todos os seus esforços tinham sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e o cavalheirismo apreciava o caráter de Peri, e via nele embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como pai de família estimava o índio pela circunstância a que já aludimos de ter salvado sua filha, circunstância que mais tarde se explicará.
Desta vez porém, D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossível que seu marido não punisse severamente esse crime abominável de um homem que ia ao mato amarrar uma onça e trazê-la viva para casa. Que importava que ele tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existência de toda a família, e sobretudo a dela?
Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antônio de Mariz assomava à porta.
— Dir-me-eis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?
— Aí a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça com um gesto soberbo.
— Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as presas do tigre.
— Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o trouxe!...
— Deve ter sido um hábil caçador, disse D. Antônio contemplando a fera com esse prazer de montearia que era um dom dos fidalgos daquele tempo: não tem o sinal de uma só ferida!
— E obra daquele excomungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D. Lauriana preparando-se para o ataque.
— Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Peri ontem perseguia, e de que nos falou Álvaro!
— Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!
— Ah! trouxe viva! Mas não vedes que é impossível?
— Como impossível se Aires Gomes vem de acabá-la agora mesmo!
Aires Gomes quis retrucar; mas a dama impôs-lhe silêncio com um gesto.
O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou que tinha as patas e as mandíbulas ligadas.
— É verdade! murmurou ele; devia estar viva há coisa de uma hora; ainda conserva o calor.
D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal, certa de que as reflexões que esta vista produziria não podiam deixar de ser favorável ao seu plano.
Quando julgou que tinha chegado o momento, deu dois passos, arranjou a cauda do seu vestido, e dando um certo descaído ao corpo, dirigiu-se a D. Antônio:
— Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me iludo! Que de vezes vos hei dito que fazíeis mal em conservar esse bugre? Não queríeis acreditar: tínheis um fraco inexplicável pelo pagão. Pois bem...
A dama tomou um tom oratório e acentuou a palavra com um gesto enérgico apontando para o animal morto:
— Aí tendes o pago. Toda a vossa família ameaçada! Vós mesmo que podíeis sair desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que corria, foi banhar-se, e podia a esta hora estar pasto de feras.
O fidalgo estremeceu à idéia do perigo que correra sua filha e ia precipitar-se; mas ouviu um doce murmúrio de vozes que parecia um chilrear de sais: eram as duas moças que subiam a ladeira.
D. Lauriana sorria-se do seu triunfo.
— E se fosse só isto? continuou ela. Porém não pára aqui: amanhã vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma jibóia; encher-nos-á a casa de cobras e lacraus. Seremos aqui devorados vivos, porque a um bugre arrenegado deu-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!
— Exagerais muito também, D. Lauriana. É certo que Peri fez uma selvajaria; mas não há razão para que receemos tanto. Merece uma reprimenda: lha darei e forte. Não continuará.
— Se o conhecêsseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis ralhar-lhe quanto quiserdes; ele o fará mesmo por pirraça!
— Prevenções vossas, que não partilho.
A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.
— Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéia de que uma jararaca sobe-me à cama; de dia a todo momento julgarei que algum gato montês vai saltar-me pela janela; que a minha roupa está cheia de lagartas de fogo! Não há forças que resistam a semelhante martírio!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.