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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Terminada a quadrilha, o cavalheiro dirigiu-se à “Bela Órfã”, e mostrando-lhe o botão de rosa, disse:

– Na Inglaterra, minha senhora, os grandes fidalgos quando jogam, desprezam o dinheiro que lhes cai no chão, e que enfim fica pertencendo ao criado mais feliz que primeiro o apanha. Levantei este botão de rosa que lhe caiu quando dançava; e dar-me-ei por extremamente venturoso se dispensar a flor que rolou a seus pés.

– Oh! é impossível! exclamou Celina com voz apaixonada; o meu botão de rosa!.. não... de modo nenhum...

– Devo crer que a minha pouca ventura...

– Não deve crer em nada... pouco ou muito feliz, teria sempre de ouvir a mesma coisa.

– Ah! compreendo: não quer dar flores a moço – O meu botão de rosa?... nem a moças.

– A sua melhor amiga...

– Não conseguiria arrancar-mo.

– Portanto este botão de rosa...

– É a flor... do meu coração.

– Feliz a mão que da roseira o colheu!

– Foi a minha.

– Pode ser... devo crê-lo... no entretanto preciso é que me sujeite ao sacrifício de entregar-lhe um tesouro que eu poderia guardar impunemente.

– Faria uma ação má...

– Bem, minha senhora; eis aí o seu talismã... Deus lhe conserve o valor e as virtudes.

O cavalheiro entregou o botão de rosa, talvez com má vontade, e retirou-se.

Cândido, quando viu a pequenina flor passar do peito do moço para o cabelo de Celina, sentiu entrar-lhe a vida no coração.

– Oh! bravo, d. Celina! acudiu Mariquinhas; eis aí um botão de rosa que deve encerrar o mais interessante mistério.

– É certo.

– Foi dado?

– Não; colhi-o.

– Quem plantou a roseira?...

– Não sei.

– Mas então como se explica esse ardor com que há pouco pedias o teu botão de rosa?...

– É que eu amo os botões de rosa; tenho predileção por eles, como você tem pelas violetas e d. Felícia pelos cravos brancos.

– Nada... aí há coisa.

Celina esteve algum tempo pensando, e enfim disse:

– Talvez.

– Oh! pois então conta-nos. Eu sou louca por histórias em que entrem flores.

– Porém é uma tolice de criança...

– Não faz mal... conta.

– Aqui não.

– Vamos ao toilette.

– Pois bem... vamos... vem conosco, d. Felícia.

As três moças saíram da sala.

Anacleto, que tinha podido apanhar algumas palavras do que elas acabavam de falar, chamou de parte Cândido, e levando-o para dentro consigo, disse-lhe:

– Vamos devagar... pregaremos uma peça àquelas três sujeitinhas, ouvindo contar uma história de rosas, que sem dúvida não terá pés nem cabeça, mas que enfim poderá servir para divertir-nos.

– No entanto Salustiano tinha achado ocasião de falar a sós com Mariana. Chegou-se a ela e disse:

Depois de amanhã pelas cinco horas e meia da tarde, terei a honra de visitar a V. Exa. Conversaremos durante meia hora sobre objeto tão importante, que eu tenho a certeza de que V. Exa. achará na riqueza de seu espírito meios de sobra para afastar daqui todas as pessoas que nos possam ser incômodas durante essa meia hora.

– Senhor!...

– Depois de amanhã, às cinco horas e meia da tarde.

CAPÍTULO X

HISTÓRIA DO BOTÃO DE ROSA

EM LUGAR de ir com as duas amigas para o toilette, que era mesmo no primeiro andar, a “Bela Órfã” guiou-as para o segundo, e entrou com elas em seu quarto.

Anacleto, levando sempre pela mão a Cândido, subiu também a escada, e entrou pé ante pé com o mancebo no quarto de Mariana.

As duas câmaras eram apenas separadas por uma delgada parede, e uma portinha as comunicava pelo fundo. A portinha estava simplesmente tapada com um leve reposteiro, ou melhor, com uma cortina de seda cor-de-rosa debruada de fita azul.

O velho levou o moço ao fundo da câmara, e com precaução e cuidado correu a cortina. O quarto de Mariana não tinha luz. No de Celina ardiam três velas em um candelabro de bronze.

Cândido viu primeiro um leito virginal defendido por cortinados de cassa branca, e através deles três moças encantadoras, cujas elegantes formas se desenhavam ainda na sombra.

E não pôde ver mais nada, porque Celina começava a falar.

A “Bela Órfã” pronunciou algumas breves palavras; mas olhando para as duas amigas e lendo-lhes no rosto a curiosidade com que estavam, corou, e hesitando, disse:

– Ora... é uma puerilidade... um sonho de criança, que parece loucura contar.

– Não, não, d. Celina; conte sempre.

– Há de ser por força muito bonito.

– Sem dúvida; pois que além de tudo, é um sonho com flores.

Celina, com os olhos pregados no colo, principiou a contar a história do botão de rosa.

(continua...)

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