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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Eis aí pois, Honorina, a origem dessa cruz, que em tão grande amor e devoção tínhamos, e que tanto devemos eternamente chorar.

Certamente; uma cruz sagrada, arrancada por semelhante maneira das mãos de homens loucos e ferozes, tinha de ser o talismã protetor dos descendentes desse homem, que seu sangue derramara, e dera a sua vida para não a ver menoscabada.

“Assim foi, porque, minha filha, Deus não se esquece daqueles que dele se lembram e nele confiam.

“Desde que o sagrado lenho entrou em casa de Arabela, a ventura começou a sorrir-se para a sua família; as privações foram desaparecendo como por encanto, seus bens se aumentaram de dia em dia, e o sossego e prazer presidiram de mãos dadas à corrente de seus anos.

“Os desejos e a recomendação de Gil Mendonça foram completamente satisfeitos; a cruz de sua filha fez-se a cruz da família, a cruz que aos nove anos de idade recebia a herdeira de seu nome. Essa obrigação cumpriu-se religiosamente talvez seis séculos; essa herança chegou ainda até nós pura, como a tinha recebido Isabel de Mendonça.

“E nunca houve uma herdeira dessa cruz, que não passasse vida feliz e sossegada.

“Enfim, forçados pelo império das circunstâncias, nós, que jamais havíamos deixado a nossa pátria, vimos buscar seguro asilo na terra de Santa Cruz, fugindo dos horrores, da destruição e da impiedade que a todos os cantos da Europa levava a espada terrível de um monstro que se chamou Bonaparte.

“Além de um tão cruel desgosto um outro, Honorina, me acompanhava. Eu não tinha tido senão dois filhos; o céu me tinha negado uma herdeira para a cruz da família; casamos Raul de Mendonça, nosso filho mais velho; porém, o primeiro fruto desse himeneu foi ainda um varão, e minha nora não concebeu mais. Restou-nos uma única esperança, era Hugo; nós o casamos também, e graças a Deus, Honorina, um ano depois desse casamento, nasceste tu para sossegarnos, para ser a herdeira da cruz da família.”

Ema suspendeu por um momento na relação que fazia, e voltando-se, para Hugo, disse com voz pausada e grave:

— Hugo, eu hei de dizer tudo o que penso e que sinto a Honorina; se não te achas disposto a ouvir-me, ou se temes incomodar-te com o que vou dizer, será melhor que te retires. — Pois bem, minha mãe, respondeu Hugo sorrindo-se, eu saio para a deixar em completa liberdade; Honorina fará justiça a seu pai.

Logo que Hugo saiu, Ema continuou:

“O mundo, minha filha, tinha passado, estava e está passando por uma revolução espantosa; revolução que nada respeita, desde a política e a religião até mesmo as mais nobres e generosas crenças de idéias individuais. Demônios eloqüentes, penas temperadas no fogo do inferno, tinham antes espalhado e pregado, segundo mil vezes me repetiu o meu santo confessor, princípios fatais à humanidade, desorganizadores dos tronos e do altar; máximas ardentes e perigosas eram oferecidas ao povo, e como incensavam a sua vaidade, foram bebidas e aceitas com entusiasmo por muitos; um vulcão se preparava, vulcão horrível, que rebentou primeiro na América, que logo depois prorrompeu em França, e do qual se ressentiu o mundo todo; depois adiante da infernal propaganda, na frente da ímpia cruzada, apareceu esse inqualificável flagelo, essa vingança de Deus, chamada Bonaparte, que fez estremecer os templos do Senhor e os tronos dos reis; que regou com ondas de sangue humano a árvore da impiedade. Enfim, esse homem sucumbiu, depois de triunfar mil vezes; porém, as idéias que ele replantou com a ponta da sua espada germinaram e vegetam ainda hoje!

“Uma palavra mentirosa, mas de fogo, embriagava os homens; era ela — liberdade! em nome da liberdade os grandes homens subiam a infamantes patíbulos... esgotavam-se os cofres públicos... cometiam-se horríveis sacrilégios... desterravam-se e exterminavam-se modestos religiosos!... ninguém mais se supôs pequeno. Uma outra palavra também mentirosa, mas também de fogo, fazia gigantes os mais desprezíveis anões... era ela — igualdade!

“Ninguém concebe quantos milhões de vítimas se tem sacrificado nos falsos altares desses dois ídolos de fumo.

“Como precisa conseqüência de tão nefandos princípios, o gênio do mal, para alimentar e dar mais intensidade ao facho da anarquia, vomitou sobre e contra nós a liberdade da imprensa... máquina de calúnias e de intrigas... veneno dos espíritos... guarda avançada das revoltas.

“Tudo mudou. Os meninos deixaram de aprender a rezar para ler periódicos e discutir presumidos direitos do homem; os operários abandonaram as suas fábricas para cuidar em eleições; a plebe imunda e perigosa agitou-se radiosa e triunfante em todas as nações.

(continua...)

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