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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Rita, sem ser rogada, mandara lançar inculcas no Porto sobre descobrir se ali viviam os dois irmãos. Não colhera indício algum. Apenas soubera que Francisco José da Costa começara a freqüentar em 1839 o primeiro ano da escola médico-cirúrgica, e abandonara os estudos em meio do ano. Quanto a Joana, vestígio nenhum levou os indagadores ao sótão da Rua-escura. Vitorina estava sempre encontrando com judiciosas reflexões o cuidado que dava a sua ama o destino da família do merceeiro, a fim de a ir desatando de recordações prejudiciais a reconciliar-se com o general. Neste louvável desígnio pedia a Rita que, se descobrisse a paragem de Joana, se calasse com o segredo para afastar novos dissabores, e a pior das calamidades, que seria fidalga casar com Francisco.

― Credo! – exclamou a irmã de Hermenegildo, dois meses antes cozinheira da abadessa. – Credo! Anjo da guarda! Pois uma fidalga assim, filha dum general, e linda como os amores, havia de casar com um pobretão?! Não me diga isso, Sr.ª Vitorina! Esta senhora, se quiser casar, encontra marido que mede o dinheiro às rasas, e tem quintas e palácios, e tudo quanto cobre a rosa do sol, e que se pode comprar com dinheiro. Vossemecê não me entende?

Vitorina parecia não entender.

― Pois vossemecê não me entende?! – tornou Rita aconchegando-se dela. – Então eu lhe conto o que se passa, e vossemecê vai ficar espantada. Faz hoje três semanas que chegou, não faz?

― É verdade.

― Pois neste pouco tempo meu irmão ganhou uma tal simpatia à menina que não faz outra coisa senão dizerme que ela é muito bonita, que é muito discreta, que é muito bem feita de corpo, que é isto, que é aquilo, que é aqueloutro. Não faz idéia, Sr.ª Vitorina! E olhe lá que eu caia em lhe dizer os amores que ela teve com o tal Francisco! Nessa não cai a Rita... Ontem era uma hora da noite, e ele ainda estava no meu quarto a batalhar p’ra que eu lhe dissesse se a fidalga inda viria a gostar dele. “Ó mano, eu sei lá o que há de acontecer!” dizia-lhe eu, e ele fezme uma pena, que vossemecê não faz idéia, quando disse muito triste: “Oxalá que eu nunca visse esta criatura! Nunca me senti apaixonado cá do interior senão agora. Estou desta idade, e é a primeira vez que pegou em mim o amor verdadeiro! Sinto-me outro homem cá por dentro. E, se isto não muda de rumo, eu não hei de ir longe... Tu verás que esta paixão dá comigo na cova”. Sabe vossemecê? Peguei a esbaguar lágrimas como punhos...

Rita alimpou ao avental os olhos aguados, e prosseguiu, sensibilizada:

― “Ó meu Hermenegildo, disse-lhe eu, tem juízo! Tu não te deixes apaixonar por uma pessoa tão nobre! Verdade é que ela é pobre; mas tem pai muito rico, sem outra filha. E a demais: ela terá vinte anos, se tiver, e tu já vais nos quarenta e seis, porque eu sou mais velha que tu quatro, e faço os cinqüenta pelas cerejas”. E vai ele levantou-se da cadeira, e saiu pelo quarto fora sem dizer palavra. Eu fiquei muito aflita, e fui-me ter onde a ele, e comecei a dizer-lhe que não perdesse a esperança, porque se tinham visto casos mais milagrosos. Não lhe digo nada, Sr.ª Vitorina; estive até à madrugada, e não pus olho, porque afinal meu irmão, de se afligir, começou a doer-lhe o fígado, e eu fui arranjar-lhe a cataplasma de linhaça. Assim que o vi descansadinho, fui rezar à minha Senhora dos Remédios, e fiz-lhe uma promessa que não digo, se ela, das duas uma, ou varresse da cabeça do meu irmão esta idéia, ou movesse a fidalga a casar com ele.

Vitorina ouviu sem tosquenejar a comovida mulher. A impressão da confidência não lhe era irrisória nem mesmo de grandes estranhezas. A criada, tanto ou quanto participante da luz do século XIX, já estava à altura da idéia democrática e niveladora quanto a nascimentos, ressalvada a profunda desigualdade quanto a “fortunas”. Pelo que, a união do plebeu ricaço com a fidalga pobre não se lhe afigurou absurda, e muito menos milagrosa, como dizia a consternada Rita, na sua exposição. Possuída, portanto, destes sentimentos indiciativos de ilustração inata, Vitorina respondeu deste modo consolativo:

― Sr.ª Dona Rita...

Não me chame Dona. Eu sou Rita de Barrosas, já lho disse um cento de vezes, e mais à sua ama. Meu pai era tamanqueiro, torno a dizer-lhe. Se um vestido de seda e um relógio de oito dá dom a quem o não tem, em pouco está o dom, e não no quero.

― Pois sim, seja como quiser. O que eu lhe digo é que seu irmão não deve descoroçoar. Minha ama tem-me falado dele com ar de amizade, e gosta muito de ouvi-lo. Quem é amiga pode ser o resto. Deixe estar, Sr.ª Dona

Rita...

― E ela a dar-lhe... – atalhou a outra. – Rita, Rita...

― Esquecia-me... Deixe estar que eu hei de sondar a minha ama...

(continua...)

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