Por Aluísio Azevedo (1891)
— Marquês! marques! chamava o conde de Saint-Malô, enquanto Alzira, desesperada, levantava soluçando os braços para o céu.
— Ó meu Deus! ó meu Deus! lamentava-se ela. É mais um que me vai pesar na consciência! É mais um que morre por minha causa!
Nesse instante, do lado contrário ao que Bouflers tomara, surgiam na treva da noite dois vultos negros, que lentamente se aproximavam, silenciosos e tristes como duas sombras.
Vinham envoltos, da cabeça aos pés, em grandes capas talares, que lhes davam ao aspecto um tom sinistro.
— Anda, meu filho... dizia um deles ao companheiro. Tem resignação, e apresse os passos, que precisamos alcançar a diligência de Raismes, para chegarmos a Monteli antes de raiar o dia...
— Sim, meu pai...
— Ai! gemeu de novo o marquês, debatendo-se no seu estertor. Morro sem confissão! Morro sem confissão! ...
Ouvindo isto, um dos dois embuçados precipitou-se sobre o moribundo, exclamando aflito:
— Que vejo?... Um corpo coberto de sangue!
E, arriando o capuz, para mostrar a sua veneranda cabeça de cabelos brancos, interrogou ao grupo que o cercava:
— Quem feriu este homem?
— Um adversário em duelo... murmurou o próprio marquês. Ai! morro! morro!
O misterioso velho arrancou do seio um crucifixo, e levou-o com a mão trêmula à boca do agonizante.
— Pede a Deus perdão das tuas culpas... segredou ele com a voz comovida.
Entrega-lhe a tua alma em plena confiança, porque eu rogarei por ela ao Senhor misericordioso!
E ouviu-se o débil sussurro de um gemido de amor esvoaçar entre os lábios do moribundo.
Era o nome de Alzira, que ele chamava pela última vez. O médico abaixou-se para auscultar-lhe o coração.
— Está morto... disse.
Houve uma triste concentração em que se ouviram prantos abafados.
E o negro vulto de barbas brancas pôs-se a rezar, ao lado do cadáver, com as mãos postas, o pálido rosto pendido sobre o seio.
Entretanto, Alzira, num transporte de aflição, correra a ter com a outra sombra, que se quedava à distancia, de cabeça baixa e rosto escondido sob o capuz, e exclamou entre soluços, estendendo-lhe os braços suplicantes:
— Meu padre! Meu padre! Sou eu a culpada de tudo isto! Sou muito, muito desgraçada! Peça perdão a Deus por mim!
O vulto se agitou e tremeu todo, através do mistério da sua negra túnica.
Ouvia-se-lhe o ansioso arquejar do peito.
Depois, como se precisasse de ar, arremessou para traz o capelo do hábito e recuou aterrado.
Alzira soltou um grito.
— Ele!
E teria caído no chão, desfalecida, se Ângelo a não amparasse nos braços.
Acudiram todos e se apoderaram dela.
O presbítero puxou de novo o seu capuz sobre o rosto, deu o braço à outra sombra, e começaram os dois de novo a seguir o seu caminho.
Ângelo tinha afinal compreendido bem a verdadeira causa da sua perturbação.
A sua perturbação era o amor.
CAPÍTULO XV
Duas vezes enjeitado
Ângelo chegou a Monteli, acompanhado por Ozéas, às sete da manhã.
Veio recebê-lo à porta da casa uma velha chamada Salomé, antiga criada que fora do falecido pároco do lugar.
— Então? então, meu filho?... perguntou-lhe o egresso. Que em ti significa tamanha tristeza?... Pareces-me um vil criminoso sobrecarregado de remorsos!...
Vamos! Não te convém esse aspecto! Dize-me com franqueza o que sentes...
— Nada! Nada, meu pai! São íntimas tristezas sem razão de ser!... são desgostos só meus, que só eu mesmo compreendo! ... A viagem fatigou-me. Preciso repousar... Bem sabe que ainda não estou bom de todo ...
— Pois sim, recolhe-te! Ali está o teu quarto. Já mandei pôr lá a imagem da Virgem. Eu ficarei aqui. Até breve. — Até breve, meu pai.
E Ângelo, arrastando a sua melancolia, entrou no pequeno aposento que lhe era destinado.
Um triste quarto, em que a formosa imagem da Virgem se destacava, como na outra cela do convento de S. Francisco de Paulo. Paredes nuas e velhas, teto esborcinado e sem forro.
Ângelo sentou-se no catre que havia a um canto, e começou a soluçar, com o rosto afogado nas mãos.
Chorava, e não sabia dizer por quê. Sofria e não se animava a confessar a si mesmo de onde lhe vinha aquela dor, que assim lhe arrancava tão quentes lágrimas do coração.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.