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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Pelas salas daquela casa, a nossa imaginação, ruminando os anos do último século, vê passar vultos dos governadores e dos vice-reis, cuja bengala era o símbolo do despotismo do governo e da escravidão do povo. Há ainda quem suspire pelas delícias daquele tempo. Eu, porém, apesar dos Freires de Andrade, Lavradio e Luís de Vasconcelos, dou graças a Deus por ter nascido em uma época em que tenho direito de pensar, falar, escrever e proceder com toda a liberdade que me garante a Constituição do Império. São gostos...

De uma das janelas da face principal daquele palácio, o governador conde de Bobadela e o bispo frei Antônio do Desterro, em um dia do ano de 1759, estiveram olhando atentamente para o trapiche que havia no lugar onde depois se estabeleceu o arsenal de guerra, enquanto se embarcavam os padres jesuítas expulsos do Brasil por ordem de D. José I.

Em que pensava então o bispo, Deus o sabe. Rezava, talvez, pedindo o perdão daqueles que, depois de terem prestado tão grandiosos serviços ao Brasil, tinham esquecido pelos bens da terra a piedosa e simples missão dos missionários dedicados e civilizadores. O conde, porém, meditava, sem dúvida, no que pode conseguir a força de vontade e a energia política de um homem como foi o Richelieu português, o famoso marquês de Pombal.

A edificação da casa dos governadores coincidiu com o começo de uma época que se recomenda à memória agradecida dos fluminenses. Porque é exatamente desse tempo que data o empenho de alguns administradores pelo embelezamento e progresso da cidade do Rio de Janeiro: as nossas melhores obras públicas foram realizadas do meado do século décimo oitavo em diante, e as ordens para a execução delas assinaram-se naquela casa.

Em 1808, a monarquia lusitana asilou-se no palácio da Sebastianópolis, fugindo à pressão e ao ímpeto vitorioso das falanges do conquistador moderno; e então a antiga casa dos governadores foi o ponto onde se concentraram as vistas de todos os portugueses, e especialmente as mais ardentes esperanças dos brasileiros, que, entusiasmados ao ver a terra de Santa Cruz elevada de colônia a metrópole, não podiam mais admitir a idéia da perda dessa supremacia.

E dentro do palácio, em uma de cujas salas a realeza fizera levantar um trono onde até bem pouco se mostrava a cadeira pesada dos vice-reis, perdeu-se no mistério de secretas confidências e nos disfarces de intrigas cuidadosamente manejadas, a história de uma longa e porfiada luta entre a corte e o príncipe regente, depois rei. Entre a corte desmoralizada, interesseira e prepotente que oprimia o povo, procurava fazer do país uma fazenda sua, e via com olhar vesgo o rápido desenvolvimento da antiga colônia; e o rei, que amava o Brasil, que desejava o bem do povo, mas que, sem energia para atuar, sem vigor, tolerava a luta, aplaudia e sustentava uma ou outra autoridade que sabia corajosa resistir à influência dos grandes da corte e, no entanto, continuava a deixar-se cercado daqueles mesmos que abusavam, prevaricavam, zombavam das leis e riam-se dos clamores do povo.

Contai agora as janelas da face lateral do paço, que olham para o largo. Contai-as, começando da extrema que faz ângulo com a fachada principal. Contastes até sete? Parai aí.

Essa sétima janela recomenda-se por uma suave e patriótica recordação a todos os brasileiros e muito especialmente aos fluminenses.

Foi nessa sétima janela que apareceu, no dia 9 de janeiro de 1822, José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, à frente dos outros membros, seus colegas, aos olhos de uma multidão de patriotas, que esperavam ansiosos a resposta do príncipe regente à representação que a municipalidade lhe fora dirigir em nome do povo, pedindo-lhe que resistisse aos decretos do governo de Lisboa e que ficasse no Brasil.

Foi do alto dessa janela que José Clemente Pereira, como presidente do Senado da Câmara, falando ao povo, exclamou:

“O príncipe regente, atendendo à representação que em nome do povo o Senado da Câmara acaba de ter a honra de dirigir-lhe, respondeu pelo modo seguinte: – Como é para bem de todos, e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico.”

O Fico era a revolução gloriosa da independência do Brasil, revolução que estava já acesa nos corações dos brasileiros; que se dirigia, encaminhava e desenvolvia nas lojas maçônicas, nos clubes dos patriotas e até no convento de S. Antônio, na cela de frei Sampaio, que se fazia já sentir nas ruas e nas praças, onde o povo se reunia exaltado, e que, enfim, rebentava dentro do próprio palácio adotada pelo príncipe, que tinha de soltar o brado independência ou morte nas margens do Ipiranga.

Do dia 9 de janeiro em diante, a causa da revolução nacional contou os dias por acontecimentos e por triunfos, e no palácio imperial não se trabalhava menos por ela do que nos clubes. Quando o príncipe chegou à margem do Ipiranga, a 7 de setembro, em São Paulo, já tinha passado o Rubicon no Rio de Janeiro.

(continua...)

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