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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

E tomando o chapéo, seguio a Ambrosiu.

— Oh! ainda bem que me resta o Sr.

Claudiano! disse Clemência rindo muito.

— Minha senhora, respondeu este, eu sou um companheiro fiel daquelles dous illustres cavalleiros, e visto que elles sahirão, está visto que não posso ficar...

Vendo retirar-se o ultimo dos tres calculistas, as duas senhoras começarão a rir com a melhor vontade.

Emfim Clemência poude conter-se, e perguntou :

— Então qual de nós duas vai para o convento, minha tia?...

— Nenhuma, porque ambas perdemos.

— Diga antes que ambas ganhamos.

— Concordo; mas a minha opinião ficou sempre victoriosa. Hoje em dia não se ama no Rio de Janeiro : já não ha mais casamentos por amor, ha somente casamentos por dinheiro.

— Não, minha tia : em todos os tempos houve sempre homens nobres e generosos, e homens indignos e vilmente interesseiros, e o que toda a senhora deve pedir ao céo é que lhe depare por marido um dos primeiros, e que a livre e guarde dos segundos.

UMA PAIXÃO ROMANTICA

I.

Um estudante é um homem excepcional que não se parece senão com outro estudante. O seu viver, o seu pensar, o seu proceder tem pontos de notavel dissemelhança do viver, do pensar e do proceder dos outros homens.

Um estudante reputa-se membre de uma republica independente, na qual o chefe do Estado é o director da escola, e são ministros os lentes e professores, e não reconhece mais autoridade legal abaixo do bedel.

Um estudante é o mais altivo dos aristocratas : para elle são nobres os seus mestres, nobres os outros estudantes; e todo o resto da humanidade vale tão pouco a seus olhos que designa com o nome bicho tanto ao mendigo como ao millionario, tanto ao plebeu como ao mais graduado dos titulares.

Um estudante é poeta, ainda que não faça versos; não é pobre nem mesmo quando não tem um real de seu, e não é bastante rico, embora tenha uma mezada sufficiente para sustentar quatro ou seis estudantes ; nunca lhe falta e nunca lhe sobra o dinheiro.

Um estudante ri de tudo, e de tudo zomba : tem um coração tão grande que lhe chega para guardar dez amores a um tempo; tem uma imaginação tão feliz que engendra dez romances em uma noite, e uma esperança tão lisonjeira, tão bella e tão fallaz que não enxerga no futuro senão felicidade e gloria.

Um estudante é o Gabrion do inspector de quarteirão; é objecto de todas as considerações do subdelegado de policia que não quer graças com elle : é nas platéas dos theatros uma potencia altamente considerada; é sympathico aos olhos de todas as senhoras ainda moças, e. temido por todas as senhoras já velhas.

Um estudante tem sempre uma declaração de amor á flor dos labios, e um epigramma na ponta da lingua. É franco e leal, mas ao mesmo tempo impertinente e desastrado; é generoso e ousado ; é tão docil que qualquer o domina, e violento e indomavel apenas de leve suspeita a idéa do dominio.

Um estudante é em politica sempre da opposição e em litteratura sempre da escola mais exagerada; em regra quer o que os outros não querem. Ama em primeiro logar a sua independencia, em segundo a originalidade, e em terceiro a todas as senhoras.

Um estudante é o melhor e o mais feliz dos homens; sabe que o é, vive como entende que deve viver, não troca a sua casaca velha pela farda bordada de nenhum ministro, nem a mesa de um collega pelo banquete do mais rico figurão ; tira partido de todas as circumstancias para divertir-se, e nunca se lembra de dar satisfações ao mundo.

Se nem todos os estudantes são assim, não é porque toda regra deva ter excepções, é somente porque ha homens que caminhão em sentido opposto da sua vocação.

Felizmente, o jovem, que é o heróe da historia que vou contar, é um verdadeiro estudante porque estuda, e porque tem todos os defeitos e todas as virtudes da sua classe.

Luciano acaba de ser approvado optime cum laude no quinto anno da escola de Medicina do Rio de Janeiro ; está habituado a esses triumphos academicos ; no imperial collegio de Pedro II onde ganhara o titulo de bacharel, tinha sido quatro vezes apontado como o primeiro entre os seus collegas de aulas, e quatro vezes pela mão do imperador havia sido a sua fronte coroada de louros.

E um bello mancebo de vinte-e dous annos : alto, fronte elevada, onde brilha a intelligencia, pallido, olhos ardentes, imaginação exaltada.

Como o anno de 1860.

Terminados os seus exames, Luciano deixa a cidade do Rio de Janeiro para ir passar três mezes de férias na casa de seu pai, rico fazendeiro do municipio de...

Luciano vai alegre de caminho para a roça ; leva porém algumas saudades e um receio no coração.

(continua...)

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