Por José de Alencar (1872)
Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, que bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, até que perdeu-se na distância.
Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não só a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.
Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria frustrada a louca esperança que a trouxera?
A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.
Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.
Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se como serpente.
Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.
Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.
Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.
Chegara o fatal momento.
Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:
- Malvado!...
O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.
XV
O relicário
Era medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.
Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu, porém, a altivez de sua alma e a fé que a inspirava.
Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rábia formidável, que terrificaria ao mais bravo.
Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.