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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

O Bastos ficava mudo e pasmo diante da volubilidade do Guimarães; ele não compreendia que um homem tivesse essa propriedade de fazer-se realejo, e repetir durante horas e horas o que dissera na véspera ou ouvira dos outros. Quanto ao Nogueira, compreendia; mas, se alguma vez lembrou-se de competir com o Guimarães, arrependeu-se e corou de si mesmo, porque reconheceu o ridículo. Sua palavra era uma águia, pensava ele: a águia da inteligência, habituada a planar entre as nuvens. Como podia fazer dessa ave corpulenta uma abelha que borboleteasse entre as florinhas de um jardim? 

Para a asa altaneira só a flor gigante, a grande ninféia escarlate, a rainha dos lagos, que os ingleses chamavam “vitória”, em honra de sua soberana, mas eu chamarei “imperatriz”, em razão de ser uma majestade brasileira. Dir-meão que não sou botânico, e portanto não tenho autoridade para crismar essa espécie de loto, que os indígenas chamavam “milho d’água”. Não é decerto minha intenção invadir os domínios da ciência. Podem os botânicos inventar quanto nome grego e latino lhes aprouver para apelidarem as plantas; podem fazer a autópsia das inocentes criaturas para reduzi-las a sistema; mas as flores, como mimos da natureza, pertencem à literatura; são do domínio da poesia. 

Onde me ia levando o pensamento? Voltemos à Tijuca. 

O Bastos desforrava-se do Guimarães e do Nogueira, quando se tratava de alguma encomenda, de qualquer dos pequenos serviços que uma senhora, privada em nosso país da plena liberdade de sair só, tem necessidade de exigir e aceitar. O Rio de Janeiro é sem dúvida uma cidade de muito luxo, abundantemente sortida pela indústria estrangeira de todos os artigos de moda e fantasia; mas, como as especialidades não estão ainda bem distintas, em virtude da desigualdade e incerteza do consumo, muitas vezes é difícil saber onde encontrar-se aquilo que deseja. 

O corretor tinha um perfeito conhecimento dessa topografia especial do comércio a retalho. Quando se tratava de comprar uma fita de cor muito rara e perfeitamente igual à fazenda; de procurar um objeto que não se encontrava na rua do Ouvidor ou da Quitanda; de escolher um presente de gosto, novo, ainda não visto; de descobrir uns botões ou enfeites de forma original e esquisita, fantasiados pela imaginação de Guida, o Bastos triunfava. Realmente fazia coisas admiráveis: ninguém arranjava uma encomenda melhor, nem mais depressa e barato. 

Nogueira e Guimarães não ousavam disputar-lhe essa superioridade. O candidato, porque nem para si próprio sabia comprar; além de que sua posição não lhe permitia descer ao papel de comissário, nem mesmo de uma moça bonita. O Guimarães não tinha jeito, nem dinheiro: a mesada que recebia do pai, e os presentes que a mãe lhe fazia, não chegavam para operar os milagres de barateza, inventados pelo corretor. 

Batido pelo Guimarães nos divertimentos, e pelo Bastos nas encomendas, o Dr. Nogueira tinha também seus momentos de triunfo: não eram mui freqüentes, mas acreditava ele que deixavam profunda e longa impressão. Quando a reunião se tornava mais solene, o que sucedia em ocasião de alguma visita de consideração ou de algum jantar de cerimônia, o advogado aproveitava algum assunto favorável para soltar as asas à sua palavra fascinadora. Divagava com graça; e sobre o mais pequeno fato tinha a arte de bordar anedotas curiosas, ditos chistosos, reminiscências interessantes, que lhe fornecia uma sofrível lição histórica. Havia em tudo isto muita afetação, e mais liga que ouro; porém entusiasmava o seu auditório habitual. 

Nestas ocasiões, Bastos e Guimarães afundavam-se em sua mediocridade. Os elogios, que obtinha a cada instante o talento do Nogueira, os incomodavam como um enxame da vespas; mas nada os esmagava como a atenção com que Guida ouvia. 

O candidato, vendo a moça presa de seus lábios, com os olhos fitos nele, acreditava que essa alma gentil se abria inocentemente ao calor de sua palavra, como a flor ao raio da aurora; e que ele penetrava-lhe no seio, e a pouco e pouco tomava posse dela. Contudo não se desvanecia; acreditava que não era ainda o coração da menina quem o ouvia, mas apenas sua curiosidade. 

Estas pretensões à mão da filha do milionário eram conhecidas não só pela família e pessoas que freqüentavam a casa, como pelos estranhos. Nenhum dos três pretendentes recatava seus projetos; ao contrário, não perdiam ensejo de fazer ostentação deles, nem se embaraçavam com o reparo dos indiferentes, quando podiam colher uma vantagem sobre os rivais. 

A sociedade habitual do comendador assistia a esse jogo matrimonial com o interesse e curiosidade, com que os romanos apreciavam uma luta de gladiadores, e os ingleses acompanhavam um steeple-chase. Dividiam-se as opiniões, e também os votos e simpatias. Havia intermináveis questões a respeito da preferência de Guida por algum de seus três adoradores. 

(continua...)

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