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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso, acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não cuidava em outra coisa senão em ninar o seu querubim. 

— Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor, desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço. 

Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro um grande rosário, todo êle de contas de ouro, com os padrenossos de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de Jaspe. 

A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas do rosário e deixou-lhe afinal pender sôbre o peito a cruz, que teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor. 

— Aquí tem! É um rosário completo com duas coroas e mais um  mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando rezar sua novena. 

Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua, receosa de que o seu menor gesto maculasse aquele primor. 

Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o efeito: 

— Está uma dona, mamãe! 

Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a de beijos e carícias. 

No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário, um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam da mão do capitão-mór; as mulheres da mão de D. Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor. 

Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais, que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de infância, outro era o da sua mãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro. 

 

XI – Comadre 

 

Flor voltara a embalar-se na rede, e Justa fazia outra vez corrupiar o fuso às castanholas de seus dedos ágeis. 

A donzela correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença de mais alguém; foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança, dirigiu-se à ama com uma carinhosa exprobração: 

— Que é feito de Arnaldo, mamãe Justa? Há três dias que chegámos e ainda ninguém o viu. 

— Arnaldo? Minha filha não sabe? É verdade que eu nem me lembrei de contar-lhe. 

— O que? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu. 

— Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da saída do senhor capitão-mór, êle veio despedirse de mim, que também ia fazer uma viagem. 

— Aonde? 

— Não disse; mas eu cuido que é para as bandas da Serra Grande, atrás de uns barbatões que o vaqueiro Inácio Góis pediu-lhe para agarrar. Nisso de campear não há quem lhe ganhe. Em todo êste sertão não havia vaqueiro como o sr. Louredo, meu defunto que Deus tem. Pois o filho ainda passa. Minha Flor não se lembra daquele novilho que êle foi pegar lá no fundo do Piauí? Gastou três meses; mas trouxe o mocambeiro amarrado à argola da cilha. 

A donzela prestava à ama vaga atenção, distraída por uma idéia que a notícia suscitara em seu espírito. Mas, desprendendo-se dessa cisma interior, tornou à conversa. 

— E mamãe não tem mêdo que lhe aconteça alguma coisa, aí por êsses desertos? 

A sertaneja abanou a cabeça com um gesto de confiança, e o rosto banhado de um ingênuo orgulho: 

— Que lhe há de acontecer? 

— Eu sei? algum perigo. 

— Está defendido. Enquanto tiver no pescoço o bentinho, não lhe acontece mal. 

— Aquele relicário vermelho? 

— Ninguém sabe quem deitou, respondeu a sertaneja afirmando com a cabeça. No mesmo dia de nascido, apareceu com êle e não se viu entrar em casa viva alma, nem a criancinha saíu da minha rede. Só quando eu acordei, ainda assim como sonhando, sentí um cheiro de incenso e vi uma alvura que me cegou. Havia de jurar que eram asas de anjo. Quando olhei para o pequenino êle estava rindo-se e a brincar com o relicário, como se já tivesse juízo para entender. 

— Nunca me contou isso, mamaãe Justa! observou a menina surpresa. 

— Meu homem não gostava que eu falasse nestas coisas, e então ficou no esquecimento o milagre do bentinho. Mas o senhor capitão-mór e a dona sabem tudo. 

— Então êsse relicário tem a virtude de livrar a pessoa de qualquer risco e desastre? 

— De todo o perigo, seja do fogo ou d’água, de ferro ou veneno, respondeu a ama com o tom da mais profunda convicção. 

(continua...)

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