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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, à qual cabia somente uma parte mínima. Estudava muito e projetava ainda mais. Delineou várias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma história da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a coligir. Veio depois um opúsculo sobre questões jurídicas e logo duas biografias de generais. Tão depressa escrevia o título da obra como a punha de lado. Seu espírito sôfrego colhia só as primícias da idéia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu próprio; mas esse gênero de escritos pessoais só é suportável à força de grande talento. Ao cabo de algumas páginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, é que não saía das efusões líricas e das proporções da anedota. Faltava-lhe o engenho preciso para extrair do fato particular a lei universal e humana; e a sagacidade com que o reconheceu sobrelevava a todos seus méritos.

Quando mais disposto se achava a compor essa autobiografia, ocorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estela, ponto de partida dos sucessos que lhe transformaram a existência. Quis vê-la novamente; talvez ali achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quase no mesmo estado. Entrou curioso e tranqüilo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; e a ressurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitário e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças dele, e tão discretamente que a ninguém revelaram o desastrado episódio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Mudam os homens, a vida varia seus aspectos; há porém nas cousas inanimadas a virtude de guardar as feições fugitivas do tempo; e a rua insignificante, o prédio denegrido, o muro escalavrado cativam os olhos da memória, reconstruindo a sensação que se foi.

Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estela, com os pombos ao colo, diante dele, naquela fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Contudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e ele tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pálido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu também a sua própria violência; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciência íntegra, a recordação fê-lo estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.

— Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.

Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chácara, donde pareceu que saíra a voz. Na chácara, a vinte passos de distância, estava um homem, que sorria para ele, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, aliás curta, respondeu sorrindo:

— Não durmo; estou pensando nos aluguéis.

— Muda-se para aqui?

— Não.

— A casa é sua?

— É. Suba cá.

O homem galgou os seis degraus da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietário, olhando atentamente para as paredes do edifício.

— Que faz por aqui, Sr. Procópio Dias, às dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro apareceu. — Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vê-la; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.

— Muito.

— Muito?

— Parece.

Procópio Dias abanou a cabeça com um gesto de lástima.

— Não é assim que deve responder um proprietário, disse ele. Meu interesse é achá-la arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum conserto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possui. — Ou fica perdido... Com

que então esta casa é sua? A aparência não é feia; há alguma cousa que pode ser consertada e ficará então excelente. Não é casa moderna; mas é sólida. Eu já a vi quase toda; desci à chácara, e estava a examiná-la, quando o senhor apareceu na varanda.

— Quer ficar com ela?

— Ingênuo! respondeu Procópio Dias batendo-lhe alegremente no ombro. Se eu confesso que ela não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande demais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...

— Mas no caso de que haja por aí algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.

— Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.

(continua...)

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