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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.

A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.

Anacleto chegou-se a eles.

– Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...

– Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.

– Pois ele canta?...

– Não o sabia, sr. Anacleto?...

– Disse-nos que pouco entendia de música.

– Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.

– Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo?

– Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...

– Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.

Terminara a primeira quadrilha.

– Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.

O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.

– Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui dizer-nos que nada sabia de música.

– É, senhor, que eu... realmente...

– Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia:

não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido?

A “Bela Órfã” entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço:

– Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.

– E agora?... responda, meu cavalheiro.

– Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tremer.

– Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.

– Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.

– Mas eu não sei que espécie de agradecimento...

– Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...

– Senhor... balbuciou Cândido.

– Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...

– Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...

A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu:

– Com muito prazer.

Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma quadrilha que acabava de conceder a Cândido.

Desfez-se o círculo que estava formado defronte de Celina. Salustiano retirouse sem dirigir-lhe uma só palavra. As moças ficaram de novo livres da companhia dos homens.

– D. Celina, perguntou Felícia, por que é que aquele moço tremia tanto quando te falava?...

– Eu sei! é talvez por ser naturalmente acanhado.

– Restava sabermos se ele tremeria do mesmo modo falando a qualquer de nós outras, acudiu a maliciosa Mariquinhas.

– Por quê?...

– Porque se não tremesse, tiraríamos uma bela conseqüência.

– Ma1iciosa!... disse Felícia, enquanto Celina fazia-se um pouco corada.

O piano chamou os pares à sala.

– Nunca houve piano que tocasse mais a propósito, tornou Mariquinhas. Celina estava me contando, sem querer, umas poucas de coisas no rubor de suas faces.

– Ah! d. Mariquinhas!...

– Cuidado comigo... não hei de tirar os olhos de você, enquanto dançamos. Dançou-se a segunda quadrilha.

Era a primeira vez que Cândido dançava ao lado de Celina. Uma mistura de prazer e de acanhamento, de satisfação imensa e de como dúvida do gosto de tão grande ventura, dava ao rosto do mancebo uma expressão nova, bela e interessante.

Acrescente-se a isso a perturbação de Celina, que se sentia devorada pelos olhos curiosos de Mariquinhas, e conceber-se-á a sensação que experimentavam os dois quando suas mãos se encontravam, quando se viam dançando defronte um do outro, esses dois jovens, uns dos quais não sabia dizer se amava, e o outro não compreendia ainda talvez o que era amor.

Em silêncio ambos, debalde uma e outra vez tentou Cândido encetar alguma conversação. Tudo se terminava em breves monossílabos pronunciados a tremer por qualquer dos dois.

A segunda quadrilha terminou; e no correr da terceira teve princípio um episódio que ocupou por alguns momentos a atenção da sociedade.

Em um passo mais rápido que Celina devia fazer, caiu-lhe do cabelo um botão de rosa, que foi a tempo apanhado pelo seu cavalheiro de vis-à-vis.

(continua...)

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