Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Sua voz ressoou terrivelmente no seio da ermida; uma multidão de braços se levantou contra ele!... mas Gil Mendonça sem hesitar descarregou o seu bastão sobre a cabeça do sacrílego, e, ao mesmo tempo que este caía desmaiado, ele se apossava da cruz. Então os maniqueus avançaram sobre Gil Mendonça, que se defendeu nobremente; enfim, cercado de todos os lados, depois de ferido cem vezes, tendo sempre a cruz em seu peito, e já tinta com seu sangue, o valente cristão caiu debaixo de tantos golpes, quando também uma centena de religiosos agricultores entrando na ermida, começaram a bater e lançar por terra os maniqueus.
Meia hora depois os sacrílegos tinham sido completamente postos em fuga, deixando muitos dos seus companheiros mortos; no meio desses cadáveres, o monge foi levantar o frio corpo daquele que sacrificara sua vida em defesa do Santíssimo Lenho.
Gil Mendonça ainda respirava, e com força indizível apertava a cruz contra o coração. Graças aos cuidados que lhe foram prodigalizados, ele abriu os olhos, viu ao pé de si o monge, e pôde falar. Contou então em poucas e entrecortadas palavras a história de sua vida; disse ao monge o nome de sua mulher e de sua filha, ensinou-lhe o lugar onde moravam, e concluiu dizendo:
— Monge! eu vou morrer; mas esta cruz é minha! esta cruz é o fruto de perto de nove anos de trabalho! esta cruz é a herança que deixo à minha filha; ela será feliz. Monge, tu me deves talvez a vida, serve-me, pois, no que te vou pedir: irás a Lisboa, sabe já onde moram meus parentes; de hoje a seis meses faz Isabel nove anos; tens cento e oitenta e um dias contados para lá ir; tu lhe entregarás nesse dia a cruz que passo agora às tuas mãos; dize-lhe que foi resgatada com o sangue e com a vida de seu pai, que lha deixa por herança.
Uma herança havia eu jurado legar-lhe... herança que a pusesse a salvo do infortúnio e da miséria... perto de nove anos trabalhei para cumprir meu juramento... eu buscava ouro... ouro para minha filha... e graças a Deus, eu deixo mais do que ouro, mais do que tudo... a ela... e a todos os meus descendentes. Essa cruz deverá fazê-los felizes!... protegerá a inocência e a fraqueza!... dize a minha filha, que sempre que nascer para o futuro uma herdeira do nosso nome, se lhe entregará a cruz, quando fizer nove anos, até que venha uma nova herdeira, e complete também essa idade... Monge... a herança de minha filha é sagrada!... cumpre o que te peço... leva minhas despedidas a meus pais... a Arabela... e a Isabel... e enfim... reza por minha alma...
Gil Mendonça deixou então cair a cabeça e expirou; o monge rezou duas horas ao lado de seu cadáver, e, erguendo-se depois, disse em voz baixa:
— E ele morreu sem reconhecer-me!
— Agora, Isabel, tu já ouviste as disposições de teu pai; recebe, pois, a herança que te pertence.
E isto dizendo, o velho peregrino tirou do seio uma cruz de ouro, que entregou a Isabel. Toda essa história tinha sido ouvida com a maior atenção, no mais profundo silêncio. No fim dela, a cruz foi por todos beijada, e o pranto da família recomeçou.
Ao amanhecer do dia seguinte, o velho peregrino abençoou a triste família, e partiu para nunca mais voltar.
Quando, ao quebrar da estrada, a casa de Arabela tinha de desaparecer para sempre a seus olhos, o peregrino voltou-se, e, limpando duas grossas lágrimas, disse:
— E Arabela viu-me!... ouviu-me!... e não me reconheceu!
E esse monge, cujos cabelos estavam completamente brancos... esse monge pálido... magro... com o rosto enrugado... as mãos trêmulas... o andar mal seguro... esse monge, que todos julgariam octogenário... tinha apenas trinta e cinco anos...
Oh!... é porque há alguma coisa que envelhece e gasta o homem ainda mais do que o tempo... é a paixão desgraçada, que não se extingue nunca... que escondida no fundo do coração... acabrunha o espírito e muda o aspecto do homem...
E aquele monge...
Gil Mendonça esteve nos seus braços... viu-o... ouviu-o... e não o reconheceu!
E esse peregrino...
Arabela hospedou-o em sua casa... viu-o... ouviu-o... e não o reconheceu! Nunca mais se ouviu falar, e nunca mais se falou em D. Rui Vaz.
VII
A cruz da família
Subida tinha sido a atenção com que Honorina escutava aquela velha história; espalhou-se no seu espírito ardente e romanesco aquele firme e inabalável propósito de um homem, que a todo o custo queria uma herança para sua filha e que, enxotado de seus teres pela má fortuna, foi correr mundo, até que a preço do seu sangue e vida conseguiu haver e deixar à herdeira do seu nome um legado tão novo como santo: achara, enfim, eco em seu coração esse amor puro e nunca vencido de rico fidalgo, que, por não ser aceito pela pobre aldeã, esquecera nome, riquezas e mundo, eremita se fizera, e em tão poucos anos tanto o pungira a sua paixão veemente e desgraçada, que lhe enrugara o rosto, que lhe tornara grisalhos os cabelos, e prematuramente o envelhecera por tal modo, que nem o seu próprio rival, nem sua antiga amada puderam conhecer no hábito de eremita o antigo Sr. D. Rui Vaz.
Passados alguns momentos, e, quando ainda duas lágrimas, mimosas pérolas de ternura, alvejavam pendentes nos negri longos cílios da bela moça, Ema prosseguiu dizendo:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.