Por Camilo Castelo Branco (1869)
Ao alvorejar da manhã, Ângela, que velara a noite ao pé do leito de Vitorina, foi sentar-se à banca de seu pai, e escreveu uma breve carta, que sobrescritou ao general Simão de Noronha, pedindo-lhe que perdoasse ao seu criado a caridade de a ter recebido, e lhe ter dado uma cama por uma noite, e lhe haver ainda esmolado dinheiro com que ela e sua criada pudessem chegar a outra porta caritativa. Em seguida, chamou João Pedro ao escritório de seu pai, abriu o cofre das jóias, leu-lhe a declaração do general, e ajuntou:
― É quase certo que, por morte do Sr. Simão de Noronha, me sejam entregues as jóias de minha mãe. Sobre este penhor, peço eu a vossemecê que me empreste uma moeda para eu poder ir daqui a uma terra chamada Barrosas.
Não tenho outro penhor que lhe oferecer.
― Pois eu tenho mais que uma moeda para dar a vossa excelência. Tenho cinqüenta.
― Uma me basta.
― Torno a pedir-lhe que não vá, fidalga.
― Hei de ir forçosamente.
― Faça-se a sua vontade. Irei então alugar cavalgaduras; e entretanto Vitorina fará o almoço.
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― Aqui tem esta carta: mande-a a meu pai – concluiu Ângela saindo com a face altiva e enxuta.
XV
MEIO MILHÃO!
Ao cabo de onze léguas de jornada, encontraram a quinta dos Choupos, residência de Rita de Barrosas, que os do sítio chamavam a Sr.ª D. Rita brasileira.
Quando apearam, Hermenegildo estava no espaçoso pátio vigiando os pedreiros que derruíam uma antiga torre de arquitetura manuelina para construir nos alicerces dela uma capoeira.
Fialho, habituado a ouvir repetidas descrições da formosa fidalga, reconheceu Ângela. Apertou o cós das ceroulas, abotoou o colete amarelo, deu um jeito ao colarinho desengravatado, e foi ao portão receber a hóspeda, mandando chamar a irmã.
― Faça favor de desculpar este desarranjo, minha senhora... – disse ele referindo-se às mouras verdes acalcanhadas, onde os pés jubilavam em pleno desafogo dos joanetes. – Vossa... vossa excelência é a Sr.ª D. Ângela, amiga cá da Rita?
― Sim, senhor... Como está ela?
― Rita como um pêro. Ela aí vem a quatro pés!... A mulher é sua amiga como nunca vi!...
― Também eu dela.
Rita abraçou Ângela pelos joelhos, e levantou-a, exclamando:
― Pilhei-a! pilhei-a! não torna a sair daqui a Sr.ª D. Ângela, senão para a companhia dos anjos, que não são tão lindos!
E com estes e outros sinceros encarecimentos entraram nas vastas salas, onde o brasileiro tinha recolhido as espigas do milhão a monte, de mistura com as cebolas, e as nozes e as castanhas.
Passado este lanço da casa, que havia sido convento de ordem rica, no ângulo formado pela vasta quadra, as salas e quartos estavam decorados com luxuoso e atrapalhado mau gosto.
― Aqui é a parte da casa que pertence à fidalga e à nossa Vitorina - disse Rita, com aprovação de Hermenegildo, manifestada por um sorriso.
― Como tudo isto é bonito! – exclamou sinceramente Ângela. – Uma princesa ficaria contente...
― A nossa princesa é vossa excelência – tornou Rita.
― Princesas que as leve a breca! – interveio Fialho num lerdo assomo de republicanismo. – O que eu quero em minha casa são pessoas amigas, que não obrigam a “intequetas” nem outras aquelas.
― Se me recebem com cerimonias – acudiu a filha do general – poucas horas estaria contente neste paraíso. ― Toca a saber o essencial – disse o brasileiro. – A senhora jantou? São cinco horas.
― Não jantamos, nem temos vontade.
Hão de comer do que houver. Rita, carne assada, fiambre, salame, e peixe frito p’ra mesa. O café hei de ir fazê-lo eu. Aqui, quem quiser estar em minha casa, há de comer e beber, passear e dormir. Divertimentos não nos há, a não ser alguma chulata cá dos labrostes da terra. A gente aqui passa três meses na chácara, e depois vai em a cidade passar o Inverno, que eu tenciono lá abrir escritório de consignações, e fazer dois ou três navios p’ra me entreter, que graças a Deus não preciso, sou solteiro, e os meus parentes, não falando cá na Rita, são os dentes, diz lá o ditado.
Hermenegildo era loquacíssimo deste feitio, e de certo modo pitoresco na linguagem.
Ângela engraçava com aquela rudeza indicativa de bom feito de bruto. O sorriso dela não era mordente, nem o lance de olhos observador. A novidade do tipo, o plebeísmo do dizer, a redondeza da pessoa, a cara espirando alegria e uma saúde oleosa, tudo isto que aceraria a sátira da mulher dum alfaiate de Lisboa, produzia na fidalga bem condicionada uma inofensiva hilaridade, com a qual o brasileiro se comprazia.
Dobaram-se dias bonançosos para Ângela. Esses seriam porventura, os mais quietos de sua vida, se, a reveses, lhe não enublasse o espírito o incerto destino de Joana e seu irmão.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.