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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Lúcio, vai lá à venda e diz ao “seu” Antunes que mande um quilo de arroz. Ângela — ajuntou — dá o caderno.

O pequeno ficou enleado e, embora se houvesse erguido, não moveu o pé; a mulher fez que não ouvia.

Barba-de-Bode insistiu com fúria:

— Você não vai rapaz? Não está ouvindo?

A mãe interveio:

— Sente-se aí!

— Como? — fez o pai.

— Então você não sabe que o Antunes não nos fia mais?

— Por quê?

— Ora, por quê? Porque você não lhe paga e não estou para o pequeno estar ouvindo desaforos!

Lucrécio ergue-se, com os olhos fora das órbitas, rilhando os dentes e expectorou:

— Aquele... Ele me paga!

E dirigiu-se para o corredor; a mulher interveio:

— Que vai você fazer, Lucrécio? Você deve... — Deixe-me! — disse ele.

A mulher insistiu:

— Não vá lá... Você tem um filho, homem de Deus!

Desvencilhou-se da mulher; ela, porém, ainda o deteve na sala de visitas, quase chorando.

— Não vá lá, Lucrécio! Não vá!

— Deixe-me! Deixe-me! Vocês não sabem o que é ser mulato! Ora bolas!

Por aí a porta do quarto que dava para a sala de visitas foi aberta e apareceu o hóspede:

— Que é isso, Lucrécio?

— Não é nada, doutor. Não é nada!

Sentou-se a uma cadeira, pôs-se um instante com a cabeça inclinada segura entre as mãos que se apoiavam nos joelhos; e, ao fim de algum tempo, perguntou à mulher que estava de pé em frente dele, braços cruzados:

— Quantos meses devemos de casa? — Três.

Pediu a conta da venda, considerou bem e disse para o filho, tirando o dinheiro do bolso:

— Vá pagar esse judeu, Lúcio! Doutor — fez para o hóspede, logo em seguida — vamos almoçar.

O doutor Gregory Petrovich Bogoloff era russo e tinha vindo para o Brasil como imigrante. Lucrécio conhecera-o na rua, num botequim; bebera com ele e, sabedor de que não tinha pouso, cedera-lhe um dos dois quartos de sua casa. Nesse tempo, o russo andava doente e tinha abandonado o núcleo colonial onde se estabelecera.

Com as melhores disposições para o trabalho honesto, imigrou, foi para uma colônia, derrubou o mato do lote que lhe deram, construiu uma palhoça; e, aos poucos, uma casa de madeira ao jeito das “isbas” russas.

A colônia era ocupada por famílias russas e polacas, e enquanto os seus trabalhos de instalação não se acabaram, Bogoloff não travou relações valiosas.

Ao fim de dois meses o doutor de Kazan tinha as mãos em mísero estado, se bem que o corpo tivesse ganhado mais saúde e mais força. Aos administradores da colônia via pouco, e evitava vê-los, porque eram arrogantes, mas travou relações com o intérprete, que muito o orientou na vida brasileira. Havia neste certos tiques, certos gestos, que pareceu a Bogoloff ter o funcionário sofrido trabalhos forçados. Era russo, e pouco disse dos seus antecedentes. Um dia disse ao compatriota:

— És tolo, Bogoloff; devias ter-te feito tratar por doutor .

— De que serve isso?

— Aqui, muito! No Brasil, é um título que dá todos os direitos, toda a consideração... Se te fizesses chamar de doutor, terias um lote melhor, melhores ferramentas e sementes. Louro, doutor e estrangeiro, ias longe! Os filósofos do país se encarregavam disso.

— Ora bolas! Para que distinções se me quero anular? Se quero ser um simples cultivador?

— Cultivador? Isto é bom em outras terras que se prestam a culturas remuneradoras. As daqui são horrorosas e só dão bem aipim ou mandioca e batata doce. Dentro em breve estarás desanimado. Vais ver!



(continua...)

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