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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Lafões, por aquelas horas, após o jantar, tinha por hábito pôr-se em camisa de meia, tamancos e calça, e completar a leitura do jornal que iniciara pela manhã. Sentava-se a uma cadeira de balanço, austríaca, que a punha bem junto à janela, tendo, à esquerda, uma cadeira, em que repousavam o isqueiro (não usava fósforo) e os cigarros "Fuzileiros".

Estava assim, naquela postura, e enrolava melhor um cigarro pacientemente, quando lhe bateram no portão de ripas de madeira. Ergueu um tanto o busto e, pondo um pouco a cabeça à mostra, quase rente ao peitoril da janela, perguntou:

— Quem é?

Reconheceu logo:

— É o Senhor Cassi.

Ergueu-se e foi ao encontro dele, abrindo a porta de entrada. Tomoulhe o chapéu pelintra, a bengala ultra-aperfeiçoada e foi dizendo prazenteiramente:

— Por aqui? Sente-se, ora esta! Seja bem-vindo!

O rapaz sentou-se, respondendo:

— Muito obrigado, meu caro "Seu" Lafões.

— Por que não aparece mais vezes, Senhor Cassi? — continuou Lafões com amizade.

— Não tenho tido tempo. Nos dias da semana, são os negócios; nos domingos, não dou para os convites. Eu vinha aqui...

— Para quê, Senhor Cassi?

— Pedir-lhe uma informação.

— Qual é, Senhor Cassi?

— Disseram-me que, no seu escritório, o inspetor está admitindo escreventes, para não sei que serviço extraordinário. O senhor não podia saber se isto é verdade?

— Pois não. Indago ao Braga, que é contínuo, vivo que nem azougue, e sabe de tudo que lá se passa — explicou Lafões.

— Quando posso vir buscar a resposta?

— Olhe, Senhor Cassi: amanhã, à tarde, não, porque tenho que ir à sessão da minha sociedade; mas, se tem pressa, pode vir depois de amanhã, logo pelas sete ou oito horas.

— Bem — fez Cassi, simulando contentamento. — Desde já agradecido. Como vão sua senhora e seus filhos?

— Bem. A mulher saiu mais o mais moço; foram a não sei que ladainha por ai. É um inferno! Estes padres têm invadido estes subúrbios com mais rapidez que os "turcos" de prestações. É dinheiro para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não posso mais! Edméia, porém, está lá no fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi?

— É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas...

— Não há incômodo algum. Edméia o aquece no espírito... Só se o Senhor Cassi não gosta aquecido?

— Gosto.

— Pois bem, vamos a ele — e gritou pela filha, com possante voz de homem são: — Edméia! Edméia!

Não tardou em aparecer a filha. Era uma gentil menina de doze anos, risonha, com uma fisionomia redonda de traços firmes e finos, cabelos tirando para o louro, cortados à inglesa. Entrando, exclamou logo:

— Oh! Estava aqui "Seu" Cassi. Que surpresa! Não sabia...

Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo;

— Há muito que não a via.

— É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá?

— Não tenho podido.

— Por quê? Parece que lá não gostam do senhor... Principalmente aquele

"pé-pe"...

— Menina — ralhou-lhe o pai. — Não te metas a intrigar os outros... Vá aquecer o café e traze-nos duas xícaras. Vá.

Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim

verdadeiro de sua visita, dizer;

— Podem não gostar de mim. Mas a implicância é sem motivo, Nunca... — Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças. Elas não sabem o que dizem.

— Agora, meu caro "Seu" Lafões, eu notei no dia da festa que o compadre do Senhor Joaquim dos Anjos não me tragava — disse Cassi.

— Isto se explica. Ele foi ou é poeta e tem em conta de coisa nenhuma os cantadores de modinhas. Lá na minha terra, os poetas fidalgos e das idalgas não tragam os fadistas do campo, aos quais chamam de rústicos e outras coisas piores. Em cada ofício, há sempre disso. O senhor não vê como os cocheiros desprezam os barbeiros? Cocheiro que não presta é barbeiro. Marramaque, velho, doente, não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que apreciam o violão e o tocam, cantando modinhas.

— Mas... o "Seu" Joaquim?

— É que eles são compadres e amigos, meu caro Senhor Cassi, Está explicado.

(continua...)

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