Por Aluísio Azevedo (1895)
- Pois qual é a missão do advogado, senão empregar meios e modos para alterar a favor do seu constituinte o juízo feito pelos jurados? Qual é a missão do advogado, senão convencer a quem supõe um homem estar tão inocente como no dia em que vestiu o seu primeiro par de calças?...
- Enganas-te, acudiu o Coruja; o advogado serve para muitas outras coisas; serve para evitar que um inocente sofra a pena que não merece; serve para...
- Ora qual! interrompeu Teobaldo. O advogado quase nunca se acha convencido da inocência do seu constituinte. Defende-o, porque a sua vida é defender os réus, e para isso lança mão de todos os recursos da oratória e serve-se de todos os laços e armadilhas da retórica!
- Mas...
- Ora! se o advogado, empregando esses meios, consegue dos jurados a absolvição do réu, é um homem pernicioso, porque faz com que aqueles se pronunciem, não pelo seu juízo calmo e refletido, mas sim dominados pelos efeitos sedutores de um bom discurso; e, se o advogado não consegue vencer a opinião dos jurados, será nesse caso um fiador inútil, visto que não adianta absolutamente nada do que estava feito! - Pois, se o direito te inspira tal repugnância, escolhe então a medicina...
- A medicina! Mas, onde iria eu buscar paciência e disposição para retalhar cadáveres e aprender os remédios que se aplicam no tratamento de tais e tais moléstias?... Acreditas lá que semelhante coisa possa ocupar a vida de um homem cheio de aspirações como eu?... Podes lá acreditar que eu chegasse a tomar interesse por um tumor ou por uma erisipela....
- É o diabo!
- De todas as carreiras, metendo a engenharia de que não gosto, por embirrância às matemáticas, só a das armas não me desagrada totalmente.
- Pois aí tens, decide-te pelo Exército ou pela Marinha.
- Mas, valha-me Deus! o curso militar baseia-se todo nos malditos algarismos e eu nem para fazer uma conta de somar tenho jeito ...
- Então...
- Além de que eu jamais daria um bom soldado ou um bom marinheiro. Só a idéia de ficar eternamente submisso ao governo do meu país; só a idéia de que tinha de deixar de ser um homem, para ser um instrumento do militarismo, um defensor oficial da pátria, com obrigação de ser um bravo a tanto por mês e de ter uma honra telhada pelo padrão de um regulamento; só isso ou tudo isso, meu André, faz-me desanimar.
- Então não há remédio, decide-te pela engenharia...
- Impossível! Seria um engenheiro que havia de contar pelos dedos, quando precisasse somar três adições!
- Então, parte quanto entes para a Alemanha e vai estudar ciências naturais...
- Que de nada me serviriam aqui no Brasil e para as quais tenho tanta aversão quanta tenho às tais ciências exatas e moreis!
- Dedica-te à igreja...
- Se eu tivesse jeito, quem sabe?
- Ou então às belas-artes. Faz-te músico, pintor ou escultor.
- E o talento para isso, onde ir buscá-lo? Queres que eu peça ao velho que me remeta lá de Mines, todos os meses, um pouco de gênio?...
- Ora! Tu tens talento para tudo.
- O que eqüivale a não ter para coisa alguma. Entendo um pouco de desenho, um pouco de música, de canto, de poesia, de arquitetura, mas sinto-me tão incapaz de apaixonarme por qualquer dessas artes, como por qualquer daquelas ciências. Tudo me atrai; nada, porém, me prende!
E, depois de um silencio, durante o qual não encontrou o Coruja uma palavra para dar ao amigo:
- Queres saber qual era a carreira que eu de bom grado abraçaria, se não fossem as conveniências...
- Qual?
- O teatro! Fazia-me ator.
- Estais louco?
- Ah! não! ainda não estou, que, se o estivesse, já teria-me resolvido a entrar em cena.- Havias de arrepender-te... – Quem sabe lá?...
II
Levavam os dois amigos uma existência bem curiosa na sua casinha de Mata-cavalos. Completavam-se perfeitamente. Teobaldo era quem determinava tudo aquilo que dependesse do gosto, era sempre quem escolhia, o outro limitava-se a conservar e desenvolver.
Ao André faltava a fantasia, a originalidade; não tinha inspirações, nem sabia comunicar às pessoas e às coisas que o cercavam o mais ligeiro reflexo individual; mas o que lhe faltava por esse lado sobrava-lhe em método, em paciência e bom senso. Era ali o espírito da ordem, o pacífico regulador do asseio e da decência; queria as coisas no seu lugar, não podia compreender o que lia ou escrevia, sem ver em torno de si a mais harmoniosa disposição nos móveis, nos livros e em todos os objetos de que se compunha a casa.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.