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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Obrigado! respondeu este. Antes, porém, de sair, permita que a felicite pela bela escolha que fez para seu amante!... liste adorável palerma merece bem uma cínica da sua ordem!

E pondo o chapéu na cabeça, encaminhou-se para a saída.

— Miserável! exclamou o marquês, correndo sobre ele. — Infame! disse Alzira acompanhando-o.

Mas foram detidos pelo conde de Saint-Malô, Artur Bouvier, Cobalt e as damas que acudiram lá de dentro em sobressalto.

— Que foi?!

— Que significa isto?!

— Bouflers!

— Um escândalo?!

— Que sucedeu?!

— Covarde! covarde! covarde! exclamou Alzira, procurando chegar até onde estava Bouflers.

— Todos os teus insultos, respondeu este. armando a carreira para fugir, não valem uma palavra, uma só, que qualquer homem tem o direito de atirar-te à cara!

E rápido, chegando a boca ao rosto dela, segredou um termo que a fulminou. E fugiu.

— Ah! gritou a cortesã, levando as mãos ao peito e cambaleando.

E correu ao marques para bradar-lhe, segurando-lhe o braço:

— Vá! Siga-o! Alcance-o ainda que no inferno! Não me volte aqui sem o haver matado!

— Oh! Obrigado, condessa! exclamou Florans.

E, desembainhando a espada, desapareceu da sala e bateu pelas escadas, ligeiro como um raio.

CAPÍTULO XIV

Era o amor

Quando Bouflers chegou à rua, lançou para o palácio de Alzira um olhar de indiferença e disse, cruzando a capa sobre os ombros:

— Ora! Não perdi grande cousa! Alzira e o marquês que vão para o diabo!

E depois cantarolou, seguindo em direção da tavolagem do conde de Charolais, príncipe de sangue:

"Corramos ao

jogo,

Que o provérbio

diz:

Amor sem ventura,

— É jogo feliz!..."

Mas, ao dobrar a esquina, o marquês, que desgalgara a escada a quatro e quatro, assomou à porta da rua e gritou-lhe, correndo:

— Olá! Ó poeta bêbado! Se não és um covarde, espera!

Bouflers voltou-se incontinenti e levou a mão aberta sobre os olhos.

— Quem é?!

Reconheceu o marquês, e perguntou com impaciência:

— Que queres de mim, basbaque?...

— Castigar-te, miserável, como se castiga um perro!

— Ah! Ah! Chegou-te afinal a indignação?... Ainda bem! (E desembainhou a espada). Vá lá! Antes tarde do que nunca!... Já fizeste a tua oração, bruto?... Não te quero despachar para a eternidade com a alma suja! Vamos! Dei-te tempo de sobra!

— A rua é escura e deserta!... considerou o marquês. Não precisamos ir mais longe. Aqui defronte da porta de Alzira, temos a claridade suficiente...

Aproximaram-se da porta, procurando colocar-se no foco da luz que vinha do corredor.

— Vê lá onde queres que te fira, fanfarrão! exclamou Bonflers pondo-se em guarda.

Artur Bouvier, o conde de Saint-Malô e o Dr. Cobalt tinham descido a escada do palácio.

As damas o seguiram.

— Marquês, disse o conde, tem em mim uma testemunha.

— E eu por ti, Bouflers! exclamou Artur.

— E o médico, pronto! acrescentou Cobalt.

— Não é preciso!... faceciou Bouflers. De qualquer modo se mata o cão! ...

— Defende-te, poeta libertino! bramiu o marquês; porque a minha intenção é matar-te!

O outro retrucou, aparando-lhe destramente os golpes:

— Antes guardasses tanto empenho para defender tua mulher, alma de Menelau!

E gritou, caindo-lhe em cheio:—Toma!

Florans desviou o tiro e fez-lhe pontaria de fundo. —Toma tu lá este. em paga da tua insolência, bandido!

Mas Bouflers soltou uma risada, e, depois de um salto para trás, desferiu-lhe um bote certeiro, que lhe atravessou o peito.

— Ai! gemeu o marquês

E caiu estatelado no chão.

— Já?... perguntou o poeta, inclinando-se. É pena! Principiava a tomar interesse pela brincadeira!

E tirou do bolso o seu lenço de rendas, para limpar a lamina da espada que escorria sangue.

Alzira acudira com um grito e lançara-se de joelhos ao lado do amante, beijando-lhe a fronte.

— Meu bom amigo, dizia entre soluços; perdoe-me! perdoe-me! Oh! Quanto sou desgraçada!

Bouvier, o conde e o médico aproximaram-se também e cercaram o ferido.

— Ai! Eu morro! gorgolejou o marquês, aflito virando a cabeça de uma banda para outra.

— Agradece-o a esse demônio que aí tens a teu lado! ... exclamou Bouflers, lançando fora o lenço com que limpara a espada.

E voltando-se para as damas: —Boas noites, gentis mulheres!

Depois falou aos outros: — Cavalheiros, boas noites!

E bateu no ombro de Artur:— Obrigado, Bouvier!

Em seguida traçou a capa e perdeu-se na sombra da rua, cantarolando de novo:

“Corramos ao jogo,

Que o provérbio

diz:

Amor sem ventura,

— É jogo feliz!..."

E desapareceu.

(continua...)

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