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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Pois bem, vai disse ele; mas, antes deixa que te faça uma revelação suprema: Eu detesto Paulo Mostella; aborreci­o logo que me falaste dele, e abominei­o encarniçadamente quando o vi pela primeira vez. Até ai tinha por ele apenas um vago desprezo, mas ao vê­lo, moço forte, bonito e não repulsivo como o pintaste, odiei­o! odiei­o com ciúme, com inveja, com desespero! Lembrei­me que Paulo te gozou como eu nunca te gozarei, porque o miserável multiplicou os teus encantos com os mistérios do crime e com as alucinações do vício! Gozou­te pelo prisma do prazer pelo prazer, sem conseqüências, sem tédios, sem obrigações positivas; colheu com a boca, entre sorrisos, a flor do teu temperamento meridional, e deixou na haste os espinhos, para que eu neles sangrasse depois meu coração e meu lábios! Por isso o execrei com todo o ardor da minha vaidade de homem e do meu egoísmo de macho! Queria vê­lo cair aos golpes do teu punhal, porque a sua morte seria a minha vida; matando­o tu, eu te amaria muito mais! Porém não posso consentir em tal: esse homem que odeio, esse monstro que te enganou, é meu cunhado e é o marido de Virgínia, minha irmã mais moça! Matá­lo seria matar a mulher, porque ela o adora com todo o entusiasmo do primeiro amor e da primeira maternidade! E como posso eu ser cúmplice na viuvez de Virgínia, no luto de meu pai e no sacrifício de seu primeiro neto?!

E Gaspar, segurando a oriental pela cintura, acrescentou com a voz suplicante:

— Vê, reflete, minha doce amiga, minha estremecida companheira! Disse­te francamente os motivos por que não consinto que realizes os teus planos de vingança; confessei­te tudo, e peço­te agora com amor, com humilhação, que sacrifique ao bem de minha família alguma cousa da tua suposta ventura... Só no caso de não atenderes às súplicas de teu mal­aventurado amante, é que o irmão de Virgínia defenderá do teu punhal o marido de sua irmã!

— Não será preciso, respondeu Violante, afastando­se. Uma vez que Paulo Mostella é necessário à felicidade de teu pai, ele viverá. Minha mão jamais se levantará para o ferir. Podes ficar tranqüilo...

— Obrigado! obrigado! exclamou Gaspar, atirando­se aos pés da oriental. Bem sabia eu que em teu coração não tinha morrido ainda a idéia do bem e da justiça; obrigado! obrigado, minha amiga!

— Não me agradeças cousa alguma. Eu cumpro um destino...

E mudando de tom:

— Desce, vai à rua e dize ao homem que lá está à minha espera, que já não preciso dele. Dá­lhe dinheiro e ordena­lhe que nunca mais me apareça.

Gaspar desceu a escada a três e três degraus.

Ao voltar ao quarto de Violante, soltou um grito; a bela mulher estava estendida no tapete, aos pés do leito, e seu colo nadava em sangue.

Apunhalara­se.

— Perdoa­me! disse ela, ofegante, ao ver entrar Gaspar. Eu sou uma desgraçada! Reconheço que é mau tudo o que cometi, mas não estava em mim poder evitá­lo... Não sei odiar de outro modo. Meu ódio só se pode esvair em sangue... Estou agora mais aliviada... parece­me ver correr do próprio peito a cólera vermelha e ardente, que dentro dele se tinha acumulado... Ai! quanto me desafronta o sangue que derramo! Sinto­me melhor... mais propensa à piedade... Vou compreendendo toda a razão das tuas palavras, meu bom companheiro... Cerraram­se­me os olhos, desfaleço, como se adormecesse no elevamento de um amor ideal... Já vejo assomar além, por entre as névoas que me ensombram, o vulto singelo e casto de teu pai... Ele sorri para mim... envolve­me toda no seu olhar compassivo e doce... Não me despertes...

E a oriental deixou pender a cabeça, e desfaleceu. Gaspar correu aos aparelhos cirúrgicos e apressouse a tomar­lhe a ferida. Mas a mão tremia­lhe, o coração saltava­lhe dentro com força, e as lágrimas corriam­lhe dos olhos em borbotão. Contudo, o médico operava, e Violante vivia.

No dia seguinte, ela abriu os olhos e recuperou a fala.

Suas primeiras palavras foram para pedir água. Gaspar negou­lha. A infeliz tinha a voz muito fraca, palidez mortal, e uma profunda melancolia espalhada por todo o semblante.

Gaspar estava ajoelhado à cabeceira da cama em que a depusera. O outro médico já se tinha retirado.

Os dois amantes ficaram longo tempo a se olharem com a mesma tristeza. Ela passou­lhe depois a mão pelos cabelos e chamou a cabeça dele para seu colo. Gaspar não podia articular uma palavra; as lágrimas corriam­lhe apressadas e quentes pela barba.

— Como tu és bom, meu amigo! como tu merecias ser feliz...

— Não estejas a falar, que isto te faz mal... observou Gaspar, no fim de alguns instantes. Vê se sossegas. Eu fico aqui, ao pé de ti...

— Sim, sim; mas preciso muito que me faças um grande favor; manda chamar um padre. Eu quero casar­me contigo antes de morrer.

— Tu não morrerás!...

— Sim, mas manda chamá­lo...

O padre veio e cumpriu­se a cerimônia. Depois Violante exigiu que se lavrasse um documento assinado por ela, declarando o modo pelo qual morria.

Ficou tudo feito. Era ela a que parecia menos aflita.

— Bem, disse quando viu que já não precisava dos estranhos, deixe­me agora com meu marido...

Ficaram a sós os dois.

(continua...)

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